O SUB-CONTEXTO SOCIAL EM 'O DIA DA IRA'
Há um tempo atrás, neste blog, falamos sobre Meu Nome é Ninguém (você vê aqui), uma pequena grande obra-prima do cineasta italiano Tonino Valerii (1934 - 2016), exímio diretor de spaghetti westerns e discípulo do lendário Sergio Leone - da trilogia dos dólares com Clint Eastwood, e o fundamental Era uma Vez no Oeste (1968).
Hoje, retomamos a obra desse competente artífice do gênero, com outro filme belíssimo e marcante, lançado ainda em um período áureo dos faroestes com aquele gostinho de pizza e canelone: O Dia da Ira (I Giorni Dell'Ira, de 1967), com dois ícones do estilo liderando o elenco - ninguém menos que Giuliano Gemma, egresso do fenômeno O Dólar Furado (1965), e Lee Van Cleef, o "homem mau", de antigos westerns americanos como Matar ou Morrer (1952), e sendo reinventado como o facínora fatal e rápido no gatilho, em produções italianas.
É sempre interessante notar como os cineastas da "terra da bota" nunca deixaram de fazer suas críticas a realidades sociais impactantes, com uma densa análise sobre os aspectos hipócritas e demagogos da sociedade tradicional, fator esse talvez bem influenciado pelo fato da Itália ter sido um dos países que mais sofreu com o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial, tendo o seu líder Benito Mussolini se aliado a Hitler em pleno conflito, e também em decorrência disso, ter sido um país com uma extensa cinematografia calcada no cinema neo-realista, um subgênero do cinema de drama, que retratava, de forma crua e amarga, as mazelas da classe operária e da população marginalizada e de baixa renda naquele país, sem concessões à ornamentação e sem nenhum romantismo.
Clássicos de cineastas como Roberto Rosselini (Roma, Cidade Aberta, 1945) e Vittorio De Sica (Ladrões de Bicicleta, 1948) atestam essa fase do cinema italiano, que deixaria profundas marcas na produção cultural posterior.
Dessa forma, mesmo em uma vertente que explorava um gênero de outro país, e de uma outra época (o western, transposto para o universo paralelo dos faroestes espaguete), roteiristas e cineastas italianos adotavam uma ótica que pendia para essa crítica dos valores, com uma visão bem cínica e aguçada sobre os confrontos de classes que já predominavam nos povoados e nascentes cidades do oeste americano.
Se por um lado teríamos o "outro Sergio", além do Leone - o Sergio Corbucci, que criaria obras niilistas como os célebres Django (1966) e Vingador Silencioso (1969), onde os ricos e poderosos sempre levavam alguma vantagem - por outro, teríamos Valerii, sentando a lenha na podre burguesia de Clifton, cidadezinha do Arizona, onde o desafortunado órfão Scott (vivido por Gemma) é o limpador de ruas que dorme em estábulos, mas sonha em se tornar um dos pistoleiros mais rápidos do oeste.
As autoridades corruptas do lugar zombam e abusam de Scott e de seu protetor Murph Allan Short, um ex-xerife agora reduzido a alcóolatra e zelador de cavalos. Isso até que... chega ao lugar Frank Talby (Van Cleef), um lendário pistoleiro, que sentirá uma certa afinidade com Scott. A ponto de torná-lo seu aprendiz.
O excelente roteiro, desenvolvido a seis mãos (por Valerii, Ernesto Gastaldi e Renzo Genta), evita firulas e consegue passar bem, mesmo que de forma rápida, o curioso relacionamento entre Scott e Talby, paternal mas faiscante ao mesmo tempo.
Quando caminha para o inevitável duelo final entre o mestre e seu pupilo, engata uma quinta marcha sanguinária e digna dos melhores bangue-bangues de todos os tempos, com um clímax de ação irrepreensível, e uma surpresa envolvendo o revólver de uma das mais lendárias figuras do western americano tradicional, citadas ao longo de toda a trama.
Em suma, um empolgante e lendário momento do spaghetti western, a ser obrigatoriamente conferido por todos os admiradores do gênero (quem ainda não viu, tem que ver!), devidamente pontuado pelo clima de suspense do onipresente e igualmente lendário tema musical de Riz Ortolani e orquestra - que virou, inclusive, trilha sonora para novela do Rede Globo (Irmãos Coragem), e muitos outros programas de TV por aí.
Aproveite, prepare a pipoca ao lado, e assista nessa cópia digitalmente remasterizada e de excelente qualidade, que está no YouTube. Antes que tirem do ar:




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