UM SOPRO OUTONAL NO ADEUS DO COWBOY FONDA
Roma, Itália, 1972. O cineasta Sergio Leone, vindo do relativo sucesso do western Quando Explode a Vingança (Giu la Testa, 1971), comenta com amigos que acha que a sua contribuição ao gênero está concretizada, apesar de ainda ter algumas ideias preciosas a respeito de um próximo filme. Contando sempre com a preciosa colaboração do compositor Ennio Morricone - quase um co-autor das contundentes tramas bangue-bangue de Leone, tão marcantes que eram suas trilhas - ele entra em contato com seu amigo, também diretor, Tonino Valerii. Vai passar a bola para ele. Mas tudo dele estará lá. As suas marcas registradas: a introdução silenciosa com pistoleiros à espreita, as grandes planícies, os homens com o pensamento fixo na morte e sem esperanças no futuro, os olhares repletos de desilusões e na expectativa do próximo tiroteio ou duelo sempre presentes, assim como aqueles assobios em meio à poeira... E ainda, para acabar de inteirar, a despedida de uma lenda do gênero.
Foi sob essa atmosfera que Leone produziu e acompanhou a realização de Meu Nome é Ninguém (Il Mio Nome é Nessuno, 1973), belíssimo faroeste que traz a última atuação do mito do cinema norte-americano Henry Fonda - o ator que Leone sempre sonhara ter em seus filmes! - como cowboy. Ele é Jack Beauregard, um dos gatilhos mais rápidos do oeste, personagem representativo de todas aquelas grandes lendas que povoaram o imaginário de uma era clássica, que já estava padecendo: o western nunca mais teria aquele aporte de público que tivera desde a tenra idade da sétima arte, o seu arco de ouro havia perdurado de meados da década de 1930 até fins da década de 1950, e a partir de 1962, 1963 em diante, o que se veria seriam experiências de reciclagem e renovação do gênero - com a inevitável incursão dos admiradores europeus e os famigerados spaghetti westerns, os seus parentes italianos, subgênero do qual o próprio Sergio Leone se constituía como principal representante, com sua 'trilogia dos dólares' e o misterioso 'homem sem nome' interpretado por um jovem Clint Eastwood, que chegava em vilarejos para tocar o terror com sua arma.
Mas, a coisa chegou num esgotamento, de tantos filmes e ideias que aconteceram. Algumas obras excepcionais, outras nem tanto, e algumas até ruins, bem risíveis mesmo. A partir do início da década de 1970, o tal filme de cowboy viraria um desses gêneros que, lá uma vez ou outra, é revisitado em tom de nostalgia e homenagem no cinema, com algumas belas obras que pagam tributo ao seu passado glorioso: Dança com Lobos (1990), Os Imperdoáveis (1992), Os Indomáveis (2007) etc.
Os sinais de cansaço que o gênero já apresentava começaram a ficar evidentes justamente após o lançamento do clássico Era Uma Vez no Oeste (C'Era una Volta il West, 1968), de Leone, e também com Fonda em um dos papéis principais, cujos ecos, inclusive da trilha sonora, permeiam Meu Nome é Ninguém. E a este tipo de faroeste, que reflete sobre o fim da era dos cowboys e suas proezas em uma terra sem lei, onde ainda predominava a lei do mais forte, mas onde agora chegam as grandes cidades e a civilização (com a Revolução Industrial e carros motorizados substituindo cavalos), convencionou-se dar um nome: faroeste outonal. Pois representa o cair de folhas do western.
É o tipo de filme que temos aqui.
Beauregard quer abandonar o Velho Oeste, ir embora em um navio para a Europa, onde deseja passar os seus últimos dias sem ser surpreendido por pistoleiros que estão sempre querendo provar que podem atirar mais rápido do que ele. Ele precisa inteirar 500 dólares para isso. Em seu caminho, cruzam antigos desafetos de seus colegas Red e Nevada Kid - os dois acabam mortos. A vida de Beauregard corre perigo. E para piorar (ou quem sabe, melhorar) um pouquinho a situação, aparece em seu caminho... Ninguém (Terence Hill).
A aparição de um dos ícones do faroeste espaguete de humor, o cara que eternizou o personagem da série Trinity e se tornou justamente uma das lendas desse gênero na Itália, é sintomática do sopro outonal que adorna toda a trama: numa bizarra e cômica (por vezes, exageradamente histriônica) paródia do 'pistoleiro sem nome' dos filmes anteriores de Leone, o cowboy pé rapado de Terence Hill é uma metáfora do novo que substitui o velho, um personagem que entra para que outro saia de cena, mas que nunca será igual ou o mesmo, ele seguirá o seu destino com suas próprias peripécias, e suas próprias escolhas. Uma autêntica elegia do fim de um gênero - e por que não, do fim de uma existência?
A maneira como a trama se desenrola a partir do embate (amizade + desconfiança) que se perfila entre esses dois personagens, de Henry Fonda e Terence Hill, um colocando desafios ao outro, para que compreendam o que precisam passar antes de encontrarem o seu "lugar ao sol", é muito interessante, dispensa maiores comentários aqui para não estragar o sabor do filme, e mostra que Leone realmente ainda tinha bala na agulha, para essa sua última empreitada.
O compositor Ennio Morricone, como sempre, imprime o seu toque muito pessoal à trilha sonora, com a sutileza de moldar um tema principal satírico e quase infantil, que surge a partir dos letreiros iniciais e acompanha todo o filme, dando um tom maroto e vivaz ao personagem de Terence Hill e seus propósitos.
A todo momento, ecos e símbolos de outros mitos do western aparecem, quase como easter eggs... Uma das lápides do cemitério indígena onde um dos companheiros de Jack está enterrado mostra o nome de "Sam Peckipoh" - um brincadeira com o nome de outro grande diretor, que quase substituíra Leone em outras ocasiões, Sam Peckinpah. O grupo de 150 facínoras que Jack tem que enfrentar ("cavalgam como se fossem 1000") tem a alcunha de The Wild Bunch, "bando selvagem" - ou seja, justamente o título original da obra-prima de Peckinpah, o faroeste Meu Ódio Será Tua Herança (1969). E um dos saloons onde ocorre a ação de Ninguém contra alguns atiradores tem o nome de Cheyenne Saloon - sendo que Cheyenne, papel de Jason Robards, era um dos pistoleiros que protagonizavam Era Uma Vez no Oeste, do próprio Leone.
Depois disso, Leone faria o seu belo e derradeiro filme, Era uma Vez na América (1984) - filme americano, de gangster, com Robert De Niro e uma mega produção, mas que ainda tinha aquele gostinho de personagens nostálgicos determinados a seguirem o seu trágico destino, tão ao modo dos faroestes.
E Fonda? Ele, o lendário pai de Jane e Peter (outros monstros do cinema), abandonaria de vez o coldre com as armas, o chapéu de abas e o cavalo, para descansar após aquela partida em um navio... às margens de um lago dourado (On Golden Pond, seu último trabalho, de 1981).







Comentários
Postar um comentário