FILME DO ELVIS


Para quem viveu numa época em que era normal amarrar cadarços de tênis 'kichute' na perna, para jogar bola na escola, ou entrar em confronto com os colegas discutindo quais figurinhas de decalque para 'tatuar' no braço eram mais legais, as que vinham nos chicletes Ploc ou nos chicletes Ping Pong, a expressão popular "filme do Elvis" vem carregada de um signo emblemático, de nostalgia. De sonhos e esperanças do passado. Vem uma série de cenas e imagens não só dos tais filmes, mas também de lembranças de um tempo que, de tão distante, nem parece que existiu.

Eu me lembro que era apenas um guri de shorts curtos, com uns 8 anos de idade, quando anunciavam na televisão que ia passar "filme do Elvis" (geralmente, em alguma Sessão da Tarde, da Rede Globo), e isso era um acontecimento que avós e tias adoravam. E foi vendo o cara bonitão com um monte de garotas em volta, disparando a cantar gingando e rebolando do nada, sem mais e nem menos, é que eu comecei a despertar o interesse sobre algumas das boas coisas da vida... Rsrs.

Os mais novos podem não ter muita noção disso, mas o cantor norte-americano batizado Elvis Aaron Presley (1935 - 1977) foi um dos maiores mitos que a arte pop já conseguiu criar, no século passado. 

Dotado de uma voz poderosa e inconfundível, além de um estilo peculiar de dançar e interpretar as suas músicas no palco, Elvis saiu da pobreza, um rapaz caipira vindo dos cafundós de Tupelo, Mississipi, para se tornar uma das maiores lendas da música contemporânea e de um gênero que logo se tornaria o símbolo da juventude em todo o mundo: o "rock and roll" ou, simplesmente, rock. 

Já é consenso há muitos anos de que não foi Elvis que criou o rock - ele se apoderou dele. Gente bem mais enfronhada no ritmo já fazia esse tipo de música antes dele, como Chuck Berry, Bo Didley, e até mesmo artistas country que já experimentavam a mistura do estilo com o rythim n' blues dos negros (vide Bill Haley ou Carl Perkins). 

Mas foi Elvis que deu cara e voz, de verdade, ao rock and roll. Graças a ele e à sua imagem, a mídia da época resolveu dar atenção e publicidade em massa ao rock.

Daí para ganhar a famosa alcunha de "Rei do Rock", foi mera consequência.

A trajetória do homem, dissecada, analisada e explorada em um sem-número de livros e reportagens, ao longo de todos esses anos posteriores à sua morte, em agosto de 1977, nos revela uma faceta dualista do 'ser humano' Elvis, que explica muitas de suas escolhas pessoais, dramas e angústias, que o levaram a se tornar a figura rotunda, enfastiada e com uma espécie de 'olhar perdido' em que ele se tornou, na reta final de sua vida.

Se por um lado, Elvis era o exemplo típico de educado rapaz americano, de bons modos, o garoto tímido e obediente, bom filhinho da mamãe (nunca conseguira se recuperar do baque que foi a morte da mesma, em 1958), por outro lado, era impulsivo e emocionalmente instável, capaz de atos repentinos e dramáticos, que ora revelavam certa agressividade, ora simplesmente eram exibicionistas e frutos de um temperamento errático - como nas vezes em que, diante de familiares e amigos atônitos, era capaz de presentear desconhecidos na rua com carros e jóias caríssimas, ou quando se irritava com quem não desse moral para o seu status de 'rei', e acabava desferindo nesses desavisados uns bons golpes de artes marciais, o seu esporte favorito.
Elvis e Tom Parker - pensa num empresário mala. E o Elvis carregando...

Logo cooptado por executivos da indústria cinematográfica de Hollywood, Los Angeles, para estender o sucesso de seu nome ao mundo da sétima arte, Elvis acabou mostrando o seu lado mais dócil e passivo nessa empreitada, sempre respeitando as vontades de seu ganancioso empresário, o mítico Coronel Tom Parker - para quem conviveu com os dois, sempre foi muito clara a analogia do "cordeirinho Elvis" sendo conduzido pela "raposa velha Tom Parker".

Isso levou Elvis a muitas escolhas erradas ou sofríveis em sua carreira de ator. Com a qual, diga-se de passagem, ele nunca ficou satisfeito, apesar de tantos filmes. Mas vamos dar uma analisada aqui no que ele conseguiu fazer, de forma a separar o joio do trigo...


PRIMEIRA FASE: Os filmes rebeldes de 'Elvis, the Pelvis'

A fase inicial da carreira de Elvis no cinema é a que contém os filmes de que ele mesmo mais gostava. Nesse período, conhecido por sempre rebolar muito e provocantemente em suas apresentações na TV (daí o apelido "the pelvis"), o ídolo gostava de se imaginar como uma espécie de Marlon Brando, ou James Dean - atores muito populares entre os jovens da época, e que sempre faziam papéis de sujeitos rebeldes ou desajustados. Tudo a ver, afinal, com o espírito de revolta do nascente rock and roll. Ainda com um maior controle sobre sua carreira nesse época, Elvis pôde escolher filmes que ele achava que representariam melhor esse tipo de imagem nas telonas.

Ainda com o topetão cheio de brilhantina e costeletas que caracterizavam o seu início artístico, Elvis estreou nos cinemas com o drama Ama-me com Ternura (Love Me Tender, 1956), um faroeste feito às pressas para aproveitar a fama do novo cantor, e que levava no título o seu primeiro baladão romântico de sucesso, lançado pela gravadora RCA. Mas mamãe Gladys Presley não gostou nadinha do resultado, e saiu chorando no ombro do filho após a sessão de estréia - tudo porque o personagem de Elvis no filme, na verdade, não é o mocinho (o cowboy psicótico Vince), e acaba morrendo baleado num tiroteio final. "Eu quero que você me prometa que não vai mais fazer filmes tristes como esse!".

Elvis, em cena do filme 'Love Me Tender' (1956)

Mesmo assim, o filme foi bem de bilheteria, garantindo a continuidade da carreira de galã de Elvis em produções famosas para a Paramount e MGM. Se seguiriam então algumas fitas mais musicais, com enredos que visavam explorar melhor o lado de cantor (que havia sido pouco mostrado no primeiro filme): A Mulher que Eu Amo (Loving You, 1957), o espetacular Prisioneiro do Rock (Jailhouse Rock, 1957) - que tem uma das mais icônicas coreografias do cinema, criada pelo próprio Elvis dançando com figurantes, na hora em que canta a música-título - e o vibrante Balada Sangrenta (King Creole, 1958). 

Em todos esses filmes, o que se vê é um Elvis mais entusiasmado, ainda no vigor da juventude, e dando o que tinha na hora de atuar. Ainda que para muita gente seus esforços não fossem visíveis (muitos críticos até hoje torcem o nariz para Elvis, e acham ele um 'canastrão'), ele consegue desenvolver uma melhor dramaticidade em muitas cenas, auxiliado também pelos roteiros, que eram bons e mais inventivos do que os dos filmes produzidos depois, na década de 60.


Em 1958, então, vem a morte da mãe de Elvis, e o seu recrutamento para servir ao exército do Tio Sam. E uma parada na carreira que muitos consideram como fatídica e desastrosa, para a reputação e criatividade do cantor. O empresário Tom Parker achava que ele tinha que mostrar para a imprensa os seus valores patrióticos, de bom rapaz americano, e se alistar. E aí... bom, e aí tudo mudaria para sempre na vida de Elvis, cada vez mais fazendo os gostos do seu "manda-chuva".


SEGUNDA FASE: O galã certinho do Havaí e Acapulco (arriba!)

Quando retornou da Alemanha, de uma base naval em Frankfurt por onde serviu ao exército americano durante 17 meses (a partir de outubro de 1958), Elvis já era um cara muito diferente do jovem cantor irreverente e desencanado que seus fãs conheciam. Moldado pelo seu empresário para ter uma imagem pública mais séria e atingir uma outra faixa etária com suas canções, ele ostentava ainda um ar amargurado por causa da morte de sua mãe (que ele idolatrava), e por se sentir cada vez mais vigiado e aprisionado pelos capangas que Tom Parker havia arranjado para tomarem conta de todos os aspectos de sua vida pessoal e profissional (a célebre "Máfia de Memphis", uma corte de puxa-sacos que seguiria com o cantor até os seus instantes finais). Dali para o uso desenfreado de "pílulas" para tudo quanto há (emagrecer, dormir, preservar a voz), foi um pulo - o que logo fez de Elvis um viciado em remédios, o prenúncio de sua morte.

Elvis no exército, comendo de bandejão

Adeus aos velhos amigos e namoradinhas que ele conhecia em Memphis. Aos passeios noturnos de motocicleta e as idas descompromissadas a parques de diversão... 

Já aprisionado com um séquito de bajuladores em sua lendária mansão Graceland, Elvis agora seria um "cantor popular adulto", de músicas românticas e sérias, sem aquela quebradeira e gritaria do rock and roll. Até uma candidata a noiva, na Alemanha, eles haviam arrumado para ele se casar e "aquietar" (Priscilla Bealieu, sua futura esposa). Um cara respeitável, enfim.

Mas aos olhos do Coronel Tom Parker, o lance dos filmes era legal como estratégia para redefinir também a carreira do cantor, e deveria continuar. Só que a partir daí, o estilo e os roteiros das produções teriam que ser analisados por ele, o empresário... e Elvis só iria fazer os filmes que fossem convenientes ou interessantes de acordo com a visão do chefão.

A primeira leva de novas produções de Elvis lançadas nos cinemas tinha tudo a ver com a nova postura midiática apresentada pelo cantor: as comédias românticas Saudades de um Pracinha (G.I. Blues, 1960) e Feitiço Havaiano (Blue Hawaii, 1961) eram filmes bonitinhos, certinhos, sem nenhum personagem ou cena violenta ou agressiva demais ao estilo do rock (como nos filmes anteriores), e tinham a quantidade perfeita de piadas engraçadinhas, cenas de Elvis garanhão com jovens e bonitas atrizes, e números musicais aqui e ali para agradar uma audiência mais madura e bem comportada. 

Os parâmetros estabelecidos por Parker criavam um novo padrão para todos os personagens interpretados por Elvis: ele invariavelmente era um americano boa pinta, desconhecido ou estranho, que trazia mudanças para algum lugar onde chegava e a presença dele era necessária, cantava e encantava, conquistava todas as gatinhas e batia de boa nos caras maus, e no final se casava, ou se dava bem com a garota mais bonita do lugar, e ia embora. Basicamente isso, em quase todos os filmes seguintes.

Só mudava mesmo o cenário, o elenco, e as equipes de produção - até os diretores costumavam ser os mesmos (Norman Taurog, por exemplo, se especializou em fazer filmes do rei).

Locações bonitas e paradisíacas também passaram a ser norma para a realização dos filmes - como o Havaí (que se tornaria tão simbólico na carreira de Elvis, que lá ele acabaria fazendo uns dos maiores shows de sua vida, transmitido para o mundo todo via satélite, em 1973) e o México: O Seresteiro de Acapulco (Fun in Acapulco, 1963) foi outro grande sucesso de bilheteria.

A fórmula criada pelo Coronel Tom Parker seria repetida à exaustão, mantendo Elvis sob contrato com as produtoras, em um punhado de títulos: Talhado para Campeão (Kid Galahad, 1962), Garotas, Garotas e Mais Garotas (Girls, Girls, Girls, 1962), Loiras, Morenas e Ruivas (It Happened at the World's Fair, 1963), Carrossel de Emoções (Roustabout, 1964), dentre outros.

Para Parker, essa era uma estratégia muito conveniente: em seu conceito, com Elvis "domesticado" fazendo filmes sem parar, um atrás do outro, seu nome ficaria em constante evidência, as suas músicas passariam a ser criadas e gravadas para alimentar as trilhas sonoras, e ele não precisaria se envolver com a gravação de nenhum grande álbum ou projeto dispendioso, que tomasse mais tempo. Outro objetivo, mais matreiro, é que mantendo Elvis ocupado e distraído dessa forma, as suas operações com os contratos e finanças do rei seriam menos analisadas...

Se antes Elvis era o "prisioneiro do rock"(nome de uma de suas músicas e filmes mais famosos), agora ele seria o "prisioneiro do cinema".

Elvis como o lutador de boxe em 'Kid Galahad' (1962) - mais à esquerda, um jovem Charles Bronson oferece apoio como colega de elenco

TERCEIRA FASE: Os filmes de 'abrir a boca' (aaah, que sono...)

Inserido em uma rotina extremamente tediosa e interminável de filmagens, Elvis praticamente liga o "piloto automático" e passa a atuar do mesmo jeito, com as mesmas caras e bocas, em praticamente todos os filmes, dali em diante. 

A linha de montagem industrial cinematográfica, na qual o Coronel Tom Parker colocou Elvis, faz com que a qualidade dos filmes vá gradualmente caindo - o que logo começa a se refletir também nas vendas de ingressos nas bilheterias, que vão diminuindo. Mesmo os fãs mais aguerridos vão ficando desinteressados com as histórias repetitivas.

Elvis em 'Canções e Confusões' (Double Trouble, 1967), típico produto de sua safra mais entediante

Tudo parecia ser muito mecânico, feito nas coxas mesmo, e desse período de 1964 até o final da década, apenas uma produção parece se destacar e realmente sair fora desse contexto, chamando mais a atenção - mas isso talvez tenha a ver com uma mudança de atitude na hora de Elvis rodar o filme, com mais empolgação do que de costume, e uma questão bem pessoal que aconteceu. 

Amor a Toda Velocidade (Viva Las Vegas, 1964) é tido como o melhor filme de Elvis nesse período. O tema era bom, e abordava uma das predileções do Rei do Rock: as corridas de carros. Elvis interpretava o piloto pinta braba Lucky Jackson - num papel que lembrava mais o dos rebeldes dos anos 50 que ele desempenhava antes. Mas mais do que isso: durante as filmagens, ele e a estrelinha principal, a belíssima loira sueca Ann-Margret, acabaram se apaixonando e tendo um caso. E bem debaixo do nariz de Priscilla - que já noiva, estava prestes a se tornar a Sra. Presley. 

Elvis e Ann-Margret: havia algo mais entre os dois além do ar que respiravam no set de filmagens...

Engraçada, espirituosa, e sempre disposta a realizar todos os gostos de Elvis, Ann e o rei mantiveram um romance que extravasou os limites do set de filmagem, e que ainda perdurou até 1965, quando por algum motivo desconhecido e nunca comentado com ninguém, resolveram dar fim ao relacionamento.

Elvis faria novamente um papel de piloto de corridas de carro - no filme O Bacana do Volante (Speedway, de 1968), mas a sua interação com a outra estrela do filme, a atriz Nancy Sinatra (filha do famoso cantor Frank) já não foi tão empática, e as cenas nas pistas eram extremamente xaroposas.

De toda essa derradeira leva de filmes do rei nos anos 60, talvez outro que melhor se destaque é Viva um Pouquinho, Ame um Pouquinho (Live a Little, Love a Little, também de 1968), no qual Elvis é um coitado de um fotógrafo profissional que se envolve com uma garota hippie maluca, praticante de ioga e esoterismo - a trama tentava pegar carona nos "novos tempos", dos quais o cantor já se encontrava tão destoado, à parte e desatualizado. Além de ter um enredo mais moderninho, e que esbarrava até mesmo na questão do empoderamento feminino (Elvis, de galã sempre senhor da situação, passava a joguete nas mãos de uma mocinha dominadora, que chegava a drogá-lo e mantê-lo em cativeiro!), a trilha sonora era mais bem cuidadinha, com excelentes canções como 'What a Wonderful World', a envolvente 'Edge of Reality' e até mesmo uma bossa nova, composta pelo brasileiro Luís Bonfá, 'Almost in Love'.

Transformado num "tiozão" careta e brega, já fora de moda e sem o público jovem de outrora (que agora já tinha envelhecido), preso a dezenas de contratos para fazer um monte de filmes sem graça que quase ninguém mais estava disposto a pagar pra ver, e sem ter conseguido conquistar um novo público, que agora estava muito mais interessado em grupos psicodélicos e trabalhos inovadores de uma nova geração de músicos ingleses, como os Beatles e Rolling Stones.

Esse era Elvis Presley, o 'Rei do Rock', no finalzinho da década de 60. Algo precisava mudar.

O rei, nas mãos de uma gatinha hippie dominadora em 'Live a Little, Love a Little' (1968) - esse foi campeão de reprises na antiga Sessão da Tarde, da TV Globo


QUARTA FASE: Chega né, pessoal (e o 'choque de realidade')

Era já meados de agosto de 1968, quando um Elvis bem de saco cheio conhece um rapaz boa pinta nos bastidores de um dos seus filmes, e começa a emendar conversa com ele: Steve Binder era um já conhecido produtor de programas na TV norte-americana, e estava naquele momento trabalhando para o prestigiado canal NBC.

O impacto que essa pequena conversa inicial teve na carreira de Elvis, dali em diante, foi tão grande, que esse foi o lance que praticamente ceifou a lenga-lenga infinita de filmes que o rei andava fazendo. 

Elvis, num arroubo de sinceridade incomum com pessoas estranhas, confessou a Binder que já andava cansado de ficar fazendo tantos filmes, mas que estava preso a contratos que o Coronel tinha feito e que ele ainda tinha a cumprir. Binder, na cara dura, disse: "Então rompa os contratos. Pare de fazer filmes! Cara, você ainda é o 'Rei do Rock'! Você não imagina como as pessoas gostariam de ver você de novo em cima de um palco, fazendo seus shows com aquela pose desafiadora sua, que você tinha. Você tem que voltar a fazer shows, Elvis!". Esse foi um autêntico choque de realidade, para o rei.



Elvis com o produtor de TV Steve Binder, e nas filmagens do histórico 'Elvis Comeback Special' (1968)

Apesar do Coronel Tom Parker não ter gostado nadinha da lavagem cerebral daquele novo amigo de Elvis, ela surtiu efeito: foi uma das únicas vezes na vida em que o rei bateu o pé com o seu empresário. Elvis exigiu o fim dos contratos para filmes, e da ideia de retornar aos palcos nasceu o triunfal e histórico especial de Natal que foi ao ar na NBC-TV, no final de 1968, assistido por milhões de pessoas: o Elvis Comeback Special - ou seja, o retorno do rei como nos velhos tempos, vestido de couro preto e cantando para uma plateia hipnotizada, desfilando seus grandes sucessos.

Os últimos filmes que Elvis ainda rodou, sob contrato, eram um filme de cowboy - gênero no qual ele estreou no cinema, e ao qual retornava agora para se despedir - e mais uma comediazinha boba e sem qualquer grande atrativo, que só se destacava pelo carisma da atriz parceira dele no filme, Mary Tiler Moore, no elenco, ambos de 1969: Charro, um faroeste soturno e sério, conseguira ser o único filme de Elvis em que ele não canta, atendendo a uma exigência dele de que queria fazer um filme só mesmo como ator. De barba e amparado por um roteiro competente, teve sua atuação até mesmo elogiada por certos veículos de imprensa. E Mudança de Hábito (Change of Habit) trazia um Elvis meio perdido, no papel de um médico que tenta, junto com a freira interpretada por Moore, ajudar uma pequena clínica em um bairro pobre da cidade onde chega.

Elvis, no faroeste Charro (1969), um de seus últimos filmes

A partir de 1970, Elvis nunca mais pisaria em um set padrão de filmagens, e todas as suas atuações dali em diante seriam bastante realistas, ou seja, desempenhando ele mesmo, o Rei do Rock, nos palcos de Las Vegas (uma eterna temporada que durou praticamente até o fim de sua vida) e outras cidades norte-americanas, onde passaria a se apresentar em turnês.

Os únicos filmes com o rei apresentados nos cinemas na década de 70, e antes de sua morte, são os documentários que registram alguns dos seus mais lendários shows na época: Elvis é Assim (Elvis - That's the Way It Is, 1970), e Elvis Triunfal (Elvis On Tour, 1972).



'Elvis - That's the Way It Is' e 'Elvis On Tour': documentários da filmografia do rei nos anos 70

Podemos afirmar que o legado de Elvis Presley, no cinema, é valorado hoje em dia, muito mais pela carga afetiva e nostálgica que desperta, em todos os seus ainda milhares de seguidores e pessoas que tinham o costume de assistir a seus filmes, no mundo todo, do que exatamente pela sua qualidade artística e longevidade estética. São obras que não passaram na prova do tempo, por significarem a ideologia e os costumes de uma época mais ingênua, em que os filmes eram produzidos com outras fórmulas, e sob um outro olhar - por mais que tenham influenciado, também, a filmografia de outros artistas musicais (Beatles, Michael Jackson e Madonna, entre outros mestres do pop, não se arriscaram no mundo do cinema à toa, eles tinham um modelo a seguir).

Apesar do Rei do Rock ter realizado, como ele mesmo disse certa vez, todos os seus "sonhos de menino", e ter conseguido ser o "herói dos filmes que assistia", ainda resta uma teimosa constatação: a de que, como ator, ele foi apenas um excelente produto da indústria musical de seu tempo.

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