12 GRANDES MOMENTOS DE ERIC 'SLOWHAND' CLAPTON

 

Recentemente, ele ganhou as manchetes dos principais sites de notícia novamente, por 2 motivos.

Eric Clapton, o lendário guitarrista inglês aclamado como 'Deus' (Clapton is God) em pichações em muros de Londres na década de 1960, surpreendeu a todos em tempos de covid-19. 

Primeiro, porque o cara, nos últimos anos padecendo de um mal terrível denominado neuropatia periférica, uma doença do sistema nervoso que afeta vários movimentos (como dos pés e, o que é pior para ele, das mãos), cujas origens especula-se que sejam provenientes de excessos antigos na birita, havia anunciado desde o ano passado que voltaria a tocar, fazendo 3 shows agora em 2021, no lendário templo britânico do rock onde já reinou em glórias passadas, a mítica casa de shows Royal Albert Hall!

Clapton, aparentemente, vem conseguindo tratamentos para driblar a doença, e alegou que está se readaptando para não deixar a sua slowhand ('mão lenta' - apelido irônico dado a ele por antigos colegas de banda) parar de trabalhar na guitarra.

Entretanto, um anúncio foi feito nos últimos dias de que, devido a receio dos produtores por conta da pandemia, na época que foi marcada para os shows, os mesmos foram remarcados para maio do ano que vem - veja aqui.

E o outro motivo para Clapton voltar a ser comentado, é que esse senhor, já do alto de seus 76 anos duramente vividos, meteu o pau na vacina Astra Zeneca, dizendo que sofrera efeitos colaterais terríveis após a aplicação - veja aqui.

Seja lá como for, de qualquer forma, é sempre bom relembrar essa grande lenda que é Clapton, o segundo melhor guitarrista do mundo de acordo com vários rankings, desde sempre.

O primeiro posto, muitos já sabem, ainda pertence ao americano Jimi Hendrix.

Mas muita gente ainda elegeria Clapton como um instrumentista melhor, por ser mais simples e mais conciso, dono de um estilo elegante e altamente reverente ao blues tradicional. 

Refinado, tem um gosto incrível para timbres envolventes, e para encaixar as notas certas nos momentos certos, em cada solo. Sempre buscou contrabalançar o vigor de momentos musicais mais selvagens e extravagantes, com uma grande dose de lirismo.

Gosto é gosto.

Mas, para quem partilha dessa preferência por Clapton, eis aí 12 grandes pérolas na carreira do slowhand, em ordem cronológica, para relembrar:


1 - FIVE LONG YEARS (1964, c/ The Yardbirds):

Recém-saído do semi-amador grupo The Roosters, o jovem Eric Patrick Clapton, com corte de cabelo escovinha, por ter terminado de servir o Exército, cai como uma luva na formação da lendária banda londrina The Yardbirds, responsável por disseminar o som do blues a uma enorme legião de jovens ingleses que procuravam algo mais rústico e rebuscado do que o som pop dos Beatles, que se tornara febre na época. Esse primeiro registro fonográfico dos Yardbirds em LP, no longínquo ano de 1964, traz já a marca registrada dos solos sinuosos e precisos de Clapton, nesse grande momento que é "5 Long Years", uma das favoritas do repertório inicial da banda no enfumaçado inferninho do Crawdaddy Club.


2 - RAMBLIN' ON MY MIND (1965, c/ The Bluesbreakers):

No curto espaço de tempo em que permaneceu nos Yardbirds (seria logo substituído pelo virtuoso e experimentalista Jeff Beck), Clapton provara que tinha ambições artísticas bem maiores, e que aquela banda se tornara muito pequena para ele. Ao mais leve sinal de se renderem a apelos mais comerciais (com a gravação do hit "For Your Love", em 1965), Clapton caiu fora, e correu para tocar o seu tão amado blues tradicional no grupo de John Mayall, os Bluesbreakers, que adorava arrebanhar os mais talentosos músicos do estilo que apareciam na Inglaterra. A sua passagem por lá também não foi duradoura, comprovando que Clapton costumava amadurecer seu estilo e suas intenções bem mais rápido do que os caras com quem tocava, mas no único disco em que durou dessa formação - esse da capinha que você vê no vídeo acima, onde Clapton é o rapaz lendo gibi - o cara teve a oportunidade de estrear a sua primeira música onde também faz o vocal principal, a dilacerante "Ramblin...", um cover de ninguém mais, ninguém menos, que um dos pais do blues, o cara a quem todos tinham que pagar tributo, e que vendeu sua alma ao inferno - Robert Johnson. Para quem ouviu Clapton cantando e tocando com maestria pela primeira vez, nessa faixa, só restava uma certeza: esse garoto teria um futuro e tanto.


3 - I FEEL FREE (1966, c/ Cream):

Peso. Psicodelia. Criatividade sem igual. Pela primeira vez, a tríade guitarra/baixo/bateria se entrelaçava de forma única no rock, provando que podiam se confrontar, se completar, e duelar, provocando uma massa sonora de altíssima voltagem que logo adiante, apenas alguns anos à frente, daria luz a um subgênero todo - rock pesado, heavy metal, Blue Cheer, Led Zeppelin, o escambau, e o que mais rolasse. Sim: a banda seguinte de Clapton, formada num arroubo de virtuosismo, megalomania, e vontade de brilhar e até desafiar Beatles, Rolling Stones e outros maiorais da época, junto com os talentosíssimos Jack Bruce (baixo) e Ginger Baker (bateria), foi essa, o Cream. 'Power trio', por excelência. E não poderia haver impacto melhor e mais gostoso de ouvir do que esse, que foi um dos primeiros singles e êxitos da banda, "I Feel Free". São quase três minutos de estrondo, torpor lisérgico, vocalizações melódicas inebriantes, e um solo simplesmente incandescente de Clapton (já convertido ao som nervoso das guitarras Gibson SG), que entraram para a história. A partir disso aí, o rock nunca mais seria o mesmo.


4 - SUNSHINE OF YOUR LOVE (1967, c/ Cream):

A aventura do Cream continuava, cada vez com mais barulho, mais inventividade, e mais conflito de egos também. O pau quebrava no estúdio e nos bastidores de shows, principalmente porque Bruce e Baker não se aturavam - e Clapton ficava no meio, tentando mediar. Mas o som surgido de toda essa tensão era épico e inacreditável: "Sunshine" figurava os vocais de Bruce e Clapton desfilando jazzisticamente pela base pesada e calcada no blues, e num riff que se tornou o hino de toda uma geração da era das flores. Desnecessário dizer que esse é um dos maiores hits da banda. E que a sua composição e gravação cravou o nome de Clapton de vez na galeria de ouro dos grandes e lendários guitarristas de todos os tempos. Detalhe: era uma das favoritas daquele que se tornaria o principal concorrente de Clapton - Jimi Hendrix, que repetidamente pagava tributo fazendo cover dela, em vários de seus shows.


5 - CROSSROADS (1968, c/ Cream):

Até hoje considerada uma das mais perfeitas gravações da história do rock, essa é mais uma das versões do lendário Robert Johnson, em que Clapton toca e faz os vocais - geralmente, no Cream, os lead vocals ficavam por conta de Jack Bruce, mas para honrar a tradição de tirar o chapéu para a lenda Johnson, Clapton fez aqui a homenagem completa. Essa clássica rendição ocorreu ao vivo, na casa de shows Winterland Ballroom, de São Francisco, EUA, em 10 de março de 1968, e pelo seu som vigoroso, e o solo irrepreensível de Clapton (numa das melhores interpretações de sua carreira), foi imediatamente incluída no álbum duplo lançado pelo Cream naquele ano, Wheels of Fire


6 - PRESENCE OF THE LORD (1969, c/ Blind Faith):

O Cream já dera tudo o que tinha pra dar. Foram 2 anos de muitos excessos, drogas, tietes, shows ensurdecedores, e egos inflados - começaram em 1966, e deram seu mítico show de despedida em 26 de novembro de 1968, no Royal Albert Hall de Londres. E para o exausto Clapton, a palavra de ordem era 'basta'. Já havia durado muito, para os padrões sempre inovadores do insatisfeito guitarrista. Agora era hora de procurar coisa nova, fazer novos e variados sons. Para isso, ele e Steve Winwood (egresso do grupo Traffic), montaram o Blind Faith - uma gangue meio bagunçada que queria fazer uma mistura mais pesada de blues, country e soul, mas com uma mão na manivela do jazz. Clapton troca a tonalidade agressiva das Gibson SG pelo timbre mais límpido e cristalino das guitarras Fender - Telecaster e Stratocaster, dependendo do que o arranjo pede. Queria novas sonoridades, e dar um vôo mais amplo ao seu blues. Aqui, ele se delicia com acordes maviosos na quase gospel "Presence...", capitaneada pelo órgão e vocais contemplativos de Winwood. De repente, entra num solo encharcado de wah wah, logo depois da primeira parte da música, e subverte a coisa toda. É um clássico instantâneo, que mais uma vez prova a genialidade do guitarrista. O Blind Faith também se tornaria pequeno para ele. Acabou durando um só disco, homônimo, que contém essa bela canção.


7 - LAYLA (1970, c/ Derek & The Dominoes):

Essa música, como muitos já sabem, é o registro histórico de uma sofrida paixão. "Layla" acabaria sendo um codinome para Patty Boyd - a esposa do melhor amigo de Clapton, o beatle George Harrison, bela modelo loira por quem ele já não conseguia mais domar seus sentimentos. O envolvimento amoroso de Clapton e Boyd abalou um pouco a amizade com Harrison, mas não a destruiu - e alguns anos depois, logo depois que Harrison e Boyd se separaram, ela se casou com Clapton (mas não durou muito tempo, também). Um rolo danado, um triângulo amoroso tresloucado, que seguiu no mesmo ritmo avassalador e frenético do bom e velho rock n' roll. O que restou disso tudo? Essa canção, belíssima, e também celebrada como uma das melhores gravações da música pop (ganhou Grammy e tudo o mais). O riff histriônico de Clapton, a levada rítmica acachapante, o entrelaçamento com os solos esfuziantes da guitarra de Duane Allman (da grande banda de rock sulista americano The Allman Brothers), e uma coda belíssima na segunda parte da canção, toda embalada no piano e em solos lânguidos de guitarra, foram o carro chefe de um álbum de mesmo nome, gravado por Clapton e amigos sob o pseudônimo Derek and the Dominoes, como se estivesse querendo se esconder da fama e de si mesmo, em uma das fases mais dramáticas de sua vida: buscando uma identidade artística própria para conseguir seguir com sua carreira, lutando contra a paixão por Boyd, e envolvido num romance infernal com dona heroína. 


8 - LET IT RAIN (1970):

Clapton, enfim, se lança em carreira solo: o disco autointitulado com seu nome, lançado em 1970, é uma extraordinária coleção de lindas canções que provam a capacidade do guitarrista em brilhar de forma autônoma, sem precisar se ancorar em bandas, parcerias ou supergrupos. Aponta, também, para o horizonte, mostrando as tendências diversificadas que o guitarrista e cantor desdobraria em seus diversos álbuns seguintes: muito country, soul, um pouco de folk e, acima de tudo, sempre acima, o bom e velho blues. "Let it Rain" toma emprestado o estilo de composição do velho parça George Harrison, e se tornou um dos grandes hits do disco.


9 - LAY DOWN SALLY (1977):


Ao prosseguir em suas experiências sonoras com estilos, e flertando com o country rock, Clapton de repente 'inventa' os Dire Straits nessa música de seu grande álbum de 1977, Slowhand. Mark Knopfler e comparsas nunca negaram a influência...


10 - COCAINE (1977):

Do mesmo álbum de 1977, essa acabou se tornando um dos maiores êxitos comerciais de Clapton. Seguindo aquela velha fórmula certeira de dar o seu toque pessoal a composições de outros artistas - começou a carreira coverizando mitos como Robert Johnson, Elmore James, e já regravara com sucesso o reggae "I Shot the Sheriff", de Bob Marley, em 1974 - Clapton fazia aqui a releitura de outro mestre guitarrista, e amigo seu, J.J. Cale. Por motivos óbvios, a gravação de Clapton se tornaria mais famosa do que a do próprio autor. A sua usina de solos faiscantes e envolventes continuava intacta. E a interpretação dele acrescentava certa ironia à letra de um cara que sabia do que estava falando, sobre o maldito pó branco. Os anos 80 estavam chegando, assim como a onda yuppie americana e Pablo Escobar dobrando a esquina...


11 - BAD LOVE (1989):
A gente agora dá um salto no tempo, para pegar Eric Clapton em mais um dos seus grandes momentos de renascimento artístico. Tal qual uma fênix, sempre ressurgindo das cinzas, o homem apresentava no álbum Journeyman, de 1989, uma faceta mais pop, mas nem por isso menos criativa, e cheia de grandes canções. Após um período de séria luta contra a bebida, que o levou a um hiato durante boa parte dos anos 80, "Bad Love" mostrava que o poder arrebatador de ganchos melódicos e riffs matadores persistia, e Clapton aproveita para emendar turnês mundiais com shows sempre lotados a partir daí (viria ao Brasil também), e que se perpetuariam durante toda a década seguinte. Mais baques pessoais abateriam o artista, logo adiante - como a trágica e até hoje comovente história da perda de seu filho de 4 anos, Conor, ainda em 1991. Mas ele parecia disposto a provar que, mesmo com todos os revezes do destino, a música continuava sendo um antídoto milagroso para seguir em frente, e um real sentido para a vida (Clapton faria um grande sucesso em 1992, em homenagem a Conor, a balada acústica "Tears in Heaven").


12 - IT HURTS ME TOO (1994):
Para encerrar essa seleção bem representativa do estilo e talento na guitarra do 'slowhand', nada melhor do que um blues - e a interpretação de um blues dos mestres negros norte-americanos, naquele mesmo feeling de quem começou reinterpretando e rendendo tributo a Robert Johnson e outros caras, lá atrás. "It Hurts Me Too" é um standard, originalmente gravado por Elmore James em 1957, e compõe o repertório de um disco lançado por Clapton que homenageia totalmente o estilo, From the Cradle, só de covers de blues. Disco no qual ele, aliás, revisita em versão própria um daqueles primeiros grandes sucessos que gravou com os Yardbirds, o "Five Long Years", que a gente comentou lá encima. O álbum todo é um troço tão poderoso, e Clapton se faz acompanhar por um time de músicos tão vigorosos do estilo, que fica até difícil pinçar qualquer faixa, e dizer que é melhor que a outra. Mas nessa interpretação, Clapton nos entrega uma de suas melhores e mais vigorosas performances vocais em muito tempo, empolgante, e põe a guitarra pra soltar acordes lancinantes e cheios de alma, como se esse fosse o último blues a ser tocado antes do mundo acabar. 
Isso, senhoras e senhores, é música de verdade.

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