LEMBRANDO O REI DO ROCK EM 'ELVIS PRESLEY - THE SEARCHER'
Talvez um das mais significativas homenagens ao lendário Elvis Presley - o até hoje denominado 'Rei do Rock' - nesses 44 anos de sua morte (completados no último dia 16 de agosto), tenha sido o lançamento do meticuloso e bem acabado documentário Elvis Presley: The Searcher, na mais popular plataforma streaming do momento, a Netflix.
É crucial essa situação: fruto de uma era já tão distante e praticamente monolítica para uma boa parte da geração atual, constituída através das décadas de revolução midiática e tecnológica 'non-stop' dos bytes, infovias, MP3 e spotifies da vida, qual seria a relevância de ainda se discutir o legado de Elvis nos dias atuais? O que pode aproximá-lo mais da garotada que pula de uma faixa para outra sem a menor cerimônia, e se liga mais nos efeitos ruidosos que um vídeo no YouTube, atrelado ao baticum eletrônico do pop, tem a lacrar, em milhares de likes e visualizações?
Interessante, mas o trabalho do diretor Thom Zimny se sai bem nesse dilema.
Primeiro, porque Elvis não é, nunca foi e obviamente nem vai ser, um artista da intelligentsia rock aristocrática de outrora. Ele não é "cabeça", não é filosófico que nem Dylan, e muito menos revolucionariamente estético e descolado como os Beatles - não construiu sua carreira em cima de longos álbuns conceituais que flertavam com outras formas de arte, e nunca escreveu uma linha de letra de música sequer.
Nunca se escorou na composição. Era o exemplo máximo do intérprete, o performer por excelência, antes de tudo. O seu negócio era por pra chacoalhar, debulhar o vozeirão no rockabilly com country e blues, e isso era o rock and roll puro e original em sua essência.
Algo que o documentário deixa bem claro (e é excelente que não soe chapa branca) é que não foi Elvis que criou o rock - mas sim, ele popularizou, e muito, como popularizou!
Assim sendo, é fábrica de hits, é povão, e é um miscigenador por natureza, coisa que o documentário já reboca na cara da gente em seus primeiros minutos - the searcher é o pesquisador, o explorador. Elvis era um cara que um século depois, talvez, estaria é fuçando em gadgets eletrônicos para fundir estilos dançantes e melódicos diferentes, de forma a fazer algo mais inédito e ousado - como ele fez ao casar rhythm n' blues de negros com bluegrass de brancos.
Digamos, então, que a arte de Elvis, devidamente reembalada e repaginada para os novos tempos (alguém se lembra do eletro remix de Junkie XL para a sua "A Little Less Conversation", de 1968?), é rápida, pop, simples e rasteira - tem muito mais a ver com Deezer e Spotify do que a de alguns dos grandes medalhões roqueiros barulhentos, experimentais e viajandões por aí...
Em determinado momento, quando o enredo nos entrega a inspiração fundamental do jovem Elvis Aron Presley na sua velha cidade natal Tupelo, baseada nas pregações musicadas e cheias de suingue gospel dos pastores evangélicos das comunidades negras sofridas, aí sim, vemos soprar a primeira lufada estonteante de um fervor messiânico que conduziria Elvis aos píncaros da fama: ali ele viu a luz.
O Elvis que o documentário mostra é um desbravador que, nessa paixão por sempre redescobrir e querer explorar a música que vem da alma, também leva seus tombos e sucumbe aos devaneios da fama, sobretudo pela ambição que o leva a ser tão submisso ao empresário (o sempre mala Coronel Parker), e a se perder na selva das ilusões após a melancólica morte da mãe Gladys. Temas espinhosos, como o corte na carreira para servir o Exército, a irregular e malfadada carreira cinematográfica do Rei (sobre a qual também já falamos muito aqui no blog), e a fase final de obesidade, depressão e dependência das drogas, são abordados sem mesuras ou concessões.
São 3 horas e 35 minutos (divididos em 2 episódios pela Netflix), de fartas cenas de arquivo, takes inéditos de canções conhecidas, trechos de filmes e relatos (muitos do próprio Elvis, em entrevistas), que mostram um dos mais amplos painéis sobre a vida de um lendário astro, talvez o melhor e mais farto documento de sua trajetória até hoje.
E a espinha dorsal do filme se baseia em um dos mais clássicos momentos da carreira de Elvis: o célebre especial de TV do Natal de 1968 (do qual também falamos aqui), o Elvis Comeback Special, da NBC, que acabou se tornando um marco de reviravolta na carreira do ídolo, e que tristemente seria o seu derradeiro ato de rebeldia, em memória às transgressões do seu vigoroso início de carreira.
Os minutos finais dessa elegia pincelam com cores fortes a interpretação do hino "If I Can Dream", tirada justamente desse especial de TV.
E podem, tranquilamente, levar às lágrimas o fã/espectador mais desavisado.




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