MAD MAX: UMA ANÁLISE CRÍTICA DA SÉRIE

 

Em 1979, chegou aos cinemas do mundo todo um dos mais emblemáticos representantes do cinema de ação futurista e distópica, prevendo o esfacelamento de uma sociedade pós-conflitos nucleares mundiais, com a franca decadência da polícia e das autoridades públicas, à mercê da extinção das cidades, e de volta à barbárie. 

Nesse cenário apocalíptico, o mundo se torna povoado por gangues selvagens dotadas de motos, bem como de carros tunados e adaptados para correr o máximo com o mínimo de combustível - reflexo da crise dos combustíveis resultante da quebra progressiva da economia global, e que logo atinge também a distribuição de água potável, líquido cada vez mais raro, devido ao desmantelamento da civilização organizada, e aos índices ainda presentes de radiação provenientes das guerras.

Esse era o plot em que se desenvolvia o roteiro de Mad Max, que ao girar em torno do simples e clássico tema da vingança, envolvendo um heróico policial que ainda resiste às mudanças - vivido pelo então jovem astro Mel Gibson - trazia ao mundo, com impressionante sucesso, a visão revolucionária e singular de um cineasta à frente de seu tempo, o australiano George Miller.

George Miller, o grande responsável pela franquia Mad Max

Hoje, vamos oferecer aqui uma análise do que esse cara aprontou, 'causando' no cenário pop cinematográfico, e criando nele o universo de um dos seus mais icônicos personagens: Max Rockatansky, patrulheiro da Polícia Central australiana, convertido em guerreiro apocalíptico.


MAD MAX (1979):


A estreia de Max nas telas se constitui em um pequeno grande clássico, feito nas estradas que cortam o árido outback australiano, com baixíssimo orçamento e muita criatividade, naquele que ainda é considerado, por muita gente, como o melhor filme do personagem até hoje. Por baixo de todo o frenesi e sensação que causou na época, com efeitos alucinados e transgressores de câmera, muito uso da estética punk e new wave, que dominava a moda e as artes populares na época, e um pé fincado no estilo dos filmes 'B' de motoqueiros dos anos 60, se trata apenas de um simples road movie, calcado na história de vingança do personagem principal, depois que ele passa a sofrer retaliações de uma gangue de motoqueiros alucinados por ter eliminado do mapa um de seus integrantes. 


O elenco é muito bom, capitaneado por um jovem Mel Gibson, ainda despontando para a fama - graças a esse personagem, é que os convites para diversos filmes na América, em Hollywood, aconteceriam. E o horripilante vilão, o psicótico líder dos motoqueiros Toecutter, é excelentemente vivido pelo ator Hugh Keays-Byrne, que se tornaria amigo pessoal de Miller, e seria homenageado por ele novamente interpretando mais um vilão da série (Immortan Joe), em seu último filme, Mad Max: Estrada da Fúria, de 2015. Hugh morreu ano passado, em 2 de dezembro de 2020, aos 73 anos.

Hugh: o mesmo ator, por trás de dois vilões icônicos, Immortan Joe e Toecutter

Tudo em Mad Max foi feito com muita gana e inventividade por Miller e seu parceiro James McCausland, que criaram um roteiro engenhoso e dinâmico, repleto de suspense. Nesse filme, aliás, nem existem menções ao fato do mundo estar bagunçado daquele jeito devido a uma guerra mundial - esse contexto só apareceria de forma mais clara no filme seguinte, Mad Max 2.




MAD MAX 2 - A CAÇADA CONTINUA (Mad Max: The Road Warrior, 1981):

O primeiro filme custara somente 900.000 dólares, e arrecadara praticamente 100 milhões ao redor do mundo inteiro. Era uma história de origem, bastante simples e feita com poucos recursos, mas dramática e impactante o suficiente para garantir uma continuação, alçando voos mais pretensiosos a respeito da jornada de Max Rockatansky.

Em Mad Max 2 (também conhecido como The Road Warrior, ao ser vendido para exibição no mercado norte-americano), temos já um orçamento maior para George Miller trabalhar a sua visão de futuro pós-apocalíptico (3 milhões de dólares), um preâmbulo que explica no que o mundo se tornou e porquê, e apresentando o protagonista mais velho, com um perfil mais amargo e lacônico, em busca tão somente de combustível para ele e seu cachorro sobreviverem vagando em um mundo cada vez mais hostil e desconstruído.

Nesse contexto, após suas andanças, ele se depara com uma cidadela onde os habitantes desenvolveram a extração artesanal de petróleo, e que é cobiçada por uma horda de bárbaros punks e invasores. Max acaba se tornando uma espécie de defensor desse povoado - em troca de gasolina, é claro.

Com uma estética visual incrível e ainda mais arrojada do que no primeiro filme, caprichando no figurino, nos movimentos acelerados de câmera, e de ultraviolência brilhantemente coreografada, com algumas das melhores cenas de perseguição e destruição de veículos da história do cinema, esse se tornaria o maior êxito comercial da saga - pelo menos, até a realização do ultimo título, em 2015. 

Gibson tem apenas 15 falas ao longo de todo o filme, algumas vezes se expressando só com os olhares, mas está excelente. E o vilão Wez, desempenhado através de grunhidos guturais por Vernon Wells, é simplesmente aterrador.

Durante muito tempo, esse seria o exemplo perfeito de filme de ação futurista e apocalíptico.


MAD MAX 3 - ALÉM DA CÚPULA DO TROVÃO (Mad Max Beyond Thunderdome, 1985):

A famosa cantora Tina Turner está no elenco do terceiro filme da série

Aqui, a coisa deu uma degringolada.

Mad Max 3 não é um filme ruim. Mas devido à grande popularização do personagem, e a influência de diversos fatores inerentes a megaproduções hollywoodianas, mais comerciais e menos espontâneas, foi eliminado muito do caráter rudimentar e espontâneo dos filmes anteriores, e o personagem principal perdeu muito de sua essência. O filme possui  referências óbvias a aventuras adolescentes típicas da época (estamos falando do mesmo período de clássicos juvenis como The Goonies e Stand By Me); aliado a isso, serve ainda como uma espécie de veículo para a cantora pop Tina Turner experimentar uma incursão no mundo do cinema, o que não foi muito bem visto por parte da crítica especializada na época (a atuação dela... bem, dá pro gasto).

Em meio a tentativas de inovar demais o personagem e amenizá-lo, o filme traz Max agora como um verdadeiro guerreiro do deserto, que combate a juíza tirana (Tina) de um povoado responsável por dominar a tecnologia de transformação de excremento de suínos em energia, e depois de algumas reviravoltas, Max passa também a liderar uma tribo de crianças perdidas que veem nele uma criatura mitológica, quase um semi-deus pós-apocalíptico aguardado em profecias, que poderia levá-los para a "terra prometida".

Com um ritmo notadamente mais lento e pesado do que o de seus predecessores, Mad Max 3 apresenta algumas boas cenas de ação - especialmente em sua primeira metade, com as lutas dentro da tal "cúpula do trovão", que nada mais é do que uma gaiola tenebrosa onde os desafiantes se digladiam balançando em cordas. Mas depois, quando Max é enviado para morrer no deserto, e ocorre o plot twist em que ele encontra a tal tribo das crianças selvagens que acreditam nele como um salvador, o enredo se perde um pouco e resvala em situações até constrangedoras (nosso "herói" é capaz de esmurrar mulheres, e pior, menores de idade!).

Por incrível que pareça, a marca registrada da série - as insanas corridas concomitantes com lutas sangrentas, em cima de carros e motos - vai ocorrer só lá pelos quinze minutos finais, de forma apressada e mal resolvida, o que confere ao filme um clima realmente mais desanimador diante dos anteriores. 

O roteiro, em certo momento, se torna um emaranhado tão confuso de tramas de seus diversos sub-personagens, que pouco resta a Gibson fazer, para salvar a coisa toda.

 

Infelizmente, essa seria a sua última aparição como Mad Max - depois ele desenvolveria uma sólida e longeva carreira de ator e diretor em Hollywood, em sucessos como a série Máquina Mortífera (1989 - 1998), Maverick (1994), Coração Valente (direção e atuação,1995), e o polêmico Paixão de Cristo (direção, 2004). 

E diante da reação mais morna do público em relação à história, seria também a derradeira produção de George Miller com a sua cria mais famosa, passando a realizar outros filmes de sucesso, numa carreira bastante eclética e irregular: As Bruxas de Eastwick (1987), O Óleo de Lorenzo (1992) e Babe, o Porquinho (1995) são alguns deles.

Esse longo hiato perdurou até que ele resolvesse matar a saudade das loucuras e corridas de carros envenenados no deserto australiano, em 2015.


MAD MAX: A ESTRADA DA FÚRIA (Mad Max: Fury Road, 2015):

Tom Hardy é o novo Mad Max

Uma viagem acachapante pelo futuro desolador. Uma verdadeira ópera do caos, do som e da violência.

Expressões assim ainda seriam insuficientes para definir, na real, a experiência acachapante que é assistir a Estrada da Fúria.

O filme é tão bem montado e enlouquecido, tão frenético, que assim que foi lançado, imediatamente entrou para a galeria das grandes obras cinematográficas dos anos 2000. Detalhe: uma boa parte dos cenários e efeitos espantosos lançou mão da computação gráfica para ser feita, mas a maioria das cenas de ação foram criadas na raça mesmo, sem nenhuma ajuda de CGI.

Quem diria que, ao eliminar o gostinho ruim deixado pelo último Mad Max (30 anos antes!), Miller seria capaz de realizar um filme que é, ao mesmo tempo, uma atualização, uma homenagem, e uma superação de todos os exemplares anteriores da saga.

Mel Gibson chegou a ser cogitado para reviver Max, mas além de já estar mais velho para o tipo de ação que o roteiro exigia, ele sofrera um 'cancelamento' em Hollywood, por declarações polêmicas sobre semitismo e brigas pessoais em que se envolveu.

Para o seu lugar, foi recrutado o excelente ator britânico Tom Hardy - que, como em outros filmes do herói, não tem muito o que falar, mas apresenta boa presença cênica.

O que ninguém esperaria é que o filme se tornasse um dos símbolos do empoderamento feminino, visto que dividindo o mesmo tempo de tela com Max, está a personagem criada para ser o seu contraponto, a Furiosa, vivida de maneira magistral pela bela Charlize Theron.

A força de Theron em cena é algo tão absurdo, que realmente cremos que esse filme é uma homenagem às mulheres e um mea culpa contra a misoginia, muitas vezes retirando totalmente o protagonismo de Max e o jogando sobre Furiosa, que se torna a verdadeira heroína, no final das contas.

O fio narrativo - que se torna um fiapo para sequências nervosas e desenfreadas, filmadas com muitos closes e velocidade - trata da incursão de Max pelo reinado do assombroso Immortan Joe e suas várias noivas, que fogem de seu domínio levadas pela capanga dissidente Furiosa, rumo a um paraíso feminino sonhado, e são obsessivamente perseguidas pelo chefão possesso e seus vassalos. Obviamente, Max entra nessa parada e acaba ajudando as moças.

Como detalhe adicional, não dá para esquecer da atuação hilária do ator Nicholas Hoult (o Fera, da saga dos X-Men), como um dos loucaços fanáticos da gangue de Immortan, mas que acaba trocando de lado ao se envolver com uma das noivas do chefe. É dele uma das frases marcantes que simbolizaram o filme: "What a lovely day to die" (Que dia adorável para morrer, pronunciada no mais carregado sotaque australiano).

Nicholas Hoult

Enfim, um espetáculo explosivo e inesquecível, que fecha com chave de ouro as peripécias alucinantes do ex-policial rodoviário e guerreiro das estradas.

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