JUSTIÇA SEJA FEITA A: RONNIE LANE
Se observarmos com cautela a imensa galeria de artistas que já se foram, e que marcaram uma determinada época na história do rock e da música pop, teremos grandes surpresas ao nos deparar com gente talentosa, de um brilho e uma criatividade impressionantes, mas que acabaram sendo ofuscadas por outras figuras (com uma maior força de promoção e marketing), ou devido a algum equívoco da mídia, sempre desatenta a tantas estrelas em potencial que, por algum motivo, não fizeram 'aquele sucesso' que mereciam.
Hoje, precisamos fazer justiça a Ronnie Lane - cantor, compositor e baixista britânico com passagem em agremiações lendárias e com parcerias incríveis no mundo da música inglesa, e que permanece, talvez, como um dos grande heróis esquecidos dos anos 60/70 do século XX.
Quando pensamos em duplas de compositores que fizeram o pau cair a folha, nessa época dourada do rock como fenômeno de massa e difusor/catalisador de modas e costumes jovens, imediatamente nos vem à mente parcerias fulminantes, como Lennon/McCartney (Beatles), e Jagger/Richards (Rolling Stones). Um pouco mais adiante, já a partir dos 1969 da vida, talvez, poderíamos pensar num Elton John/Bernie Taupin, ou nos tonitruantes Jimmy Page/Robert Plant (do Led Zeppelin). E ainda, nos briguentos David Gilmour/Roger Waters (do Pink Floyd)... Lendas, lendas, lendas. Duplas lendárias.
Mas quem, em sã consciência, conseguiria se lembrar de cara de Ronnie Lane e Steve Marriot, nos possantes e extintos Small Faces, em plena "era das flores" na Inglaterra?
Sim, durante um curto período, entre 1965 e 1969, eles foram uma das bandas mais quentes e descoladas que a Swingin' London conheceu. E eram capazes de arrasar em qualquer show e lançar hits incríveis, com um som enérgico às vezes comparado apenas a The Who, a banda de Pete Townshend que havia elevado o visual mod britânico, e um rock básico e mais pesado, com influências de soul e blues, a um último patamar.
A coisa começou mais ou menos assim: Lane era um cara fascinado pelo instrumento de 4 cordas, de som grave e pulsante, que ele adorava ouvir em várias gravações do bom e velho rock and roll made in USA. Assim como todo garoto inglês daquela época, em Londres, ele havia virado rato de lojas de discos e de instrumentos musicais - todo mundo queria montar uma banda para tentar uma chance de ser os próximos Animals, Yardbirds, ou Rolling Stones. Beatles? Hum... quem sabe, sonhar não era pago. E nisso, um belo dia, Lane visita a J60 Music Bar, uma loja de instrumentos onde ele havia visto um baixo elétrico que ele queria. E lá encontra um jovem vendedor, Steve Marriot, também louco para formar um grupo. Conversa vai, conversar vem... "ei, aparece lá em casa para eu te mostrar uns discos muito da hora que eu tenho ouvido".
Lane não acreditava naquele extraordinário universo no qual o seu novo amigo o havia introduzido: antenado, Marriot possuía toda uma coleção de discos de soul music, música negra norte-americana das gravadoras Stax e Motown. Aquele som vibrante, que induzia à dança bem ritmada, de gente como James Brown, Otis Redding, Supremes, Temptations, e outros bambas da época, era a senha para que Lane re-idealizasse o que seria o modo ideal de tocar um baixo e saborear todas as suas notas, formando a base colossal para o que deveria ser o som de um novo grupo. "Te desafio a conseguir tocar do jeito que esses caras tocam, e podemos montar uma banda pra gente mandar ver", provocou Marriot.
Missão dada, missão cumprida. Nasciam os Small Faces, com uma mescla poderosa e certeira de rock bruto e soul music densa.
Acompanhavam eles nessa aventura, o baterista Kenney Jones (que anos depois, substituiria o falecido Keith Moon, no The Who), e o tecladista Ian McLagan.
Sucessos como "What'cha Gonna Do About It", "Here Come the Nice" e "Tin Soldier" fizeram a cabeça de muita gente naquela reta final dos anos 60. No equilíbrio que gerava a combustão do grupo, Lane era o cara mais centrado e musical, com uma postura de palco sempre sóbria e marcante, conduzindo a banda com linhas de baixo precisas e robustas, que emulavam o suingue daquele pessoal negro do outro lado do Atlântico, enquanto Marriot perdia as estribeiras e sacolejava a guitarra, soltando riffs e solos desesperados e cheios de paixão. Revezavam nos vocais - os calmos e melódicos de Lane contrastavam com os rasgados e enlouquecidos de Marriot. E compondo juntos, pariam clássicos.
Mas assim como toda grande banda que chega ao auge, e depois parte para o inevitável declínio, os Small Faces começaram a enfrentar problemas depois da gravação de sua obra-prima, o álbum Ogden's Gone Nut Flake (1968), tão bem feito no estúdio, e com tantos efeitos de gravação, que se tornara praticamente impossível de ser reproduzido ao vivo.
A adulação da crítica especializada e de fanzocas em torno da imagem extremamente pop da banda também desagradava Steve Marriot, o verdadeiro frontman do grupo, que viria a se tornar um cara mais radical e roqueiro, e começava já a planejar a saída para uma carreira solo, ou mesmo montar um outro grupo, onde pudesse dar vazão a composições em um estilo mais heavy, na linha de bandas como o Cream, de que ele gostava. O crescente hábito de beber e confrontar os outros membros dos Small Faces, incluindo o seu grande parceiro Ronnie Lane, também contribuiria para a ruptura que se aproximava.
Em meados de 1969, quando Marriot afinal anuncia a sua nova parceria com o exímio guitarrista Peter Frampton, em um novo projeto chamado Humble Pie, nada mais restava a Lane e os outros caras, a não ser partir para uma outra também. Os Small Faces acabam.
Lane toma a frente da coisa e, já a partir do final daquele ano, emenda negociações e ensaios com alguns músicos amigos de estrada, que vinham de grupos com quem já haviam tocado em turnês. A nova banda, batizada apenas de The Faces, tem como novidade duas figuras que, por si só, já se tornariam lendas instantâneas da história do rock: egressos do Jeff Beck Group, vinham Rod Stewart (vocais), e Ron Wood (guitarra - sim, o mesmo que depois viria a integrar os Rolling Stones). Acompanhando, os velhos parceiros Kenney Jones na bateria, e Ian McLagan nos teclados.
De 1970 a 1975, essa nova formação produz sucessos um atrás do outro, é só arrasa-quarteirão: "Cindy Incidentally", "Stay With Me", "Richmond" e outras, sempre embalados pelo carisma das interpretações roucas do bebaço Rod Stewart, e pelo potente combo sonoro promovido pelo grupo. Lane, sempre mais como coadjuvante, está ali, no apoio para outro grande momento do rock acontecendo.
Até que os apelos de uma carreira solo para o estrela Stewart começam a se tornar inevitáveis. O próprio Lane também deseja encarar projetos mais pessoais a partir de 1975, e Ron Wood começa o seu namoro com os Stones assim que o guitarrista Mick Taylor sai da banda, levantando o dedinho para Mick Jagger e Keith Richards o chamarem para ocupar a vaga, "tô aqui, tô aqui". Os Faces chegam, então, ao fim.
A partir daí, a carreira de Ronnie Lane se torna bem menos visível aos holofotes da mídia, mas nem por isso menos brilhante.
Com o novo grupo Slim Chance, ele revela talentos para a composição que exploram novas nuances musicais num estilo autoral mais raiz, indo do folk reflexivo ao country grudento, com pegadas de um bom blues no meio - o disco homônimo gravado por eles, em 1973, é uma prova dessa genialidade e inquietação.
Ronnie Lane tocando 'How Come', com o Slim Chance em 1973, na TV inglesa
Nas poucas entrevistas concedidas a partir desse projeto, e através do relato de amigos, sabemos hoje que Lane era um grande purista da arte genuína, levada ao grande público com altruísmo e sacerdócio, sem grandes interesses financeiros ou mercantilistas, desiludido que era das manobras e peripécias de gravadoras e empresários para extorquir, surrupiar e se aproveitar de quem realmente tinha talento, muitas vezes deixando os verdadeiros responsáveis criativos pelo sucesso em condições deploráveis.
Crítico que era dessa situação, lamentava ver seu ex-colega e parceiro Steve Marriot se esvair nas drogas e na bebedeira, indo para a derrocada com sua banda Humble Pie depois de tantas artimanhas cascateiras da indústria pop. A certa altura, Lane tornou-se tão aguerrido por esse posicionamento que, em 1974, adotaria uma espécie de postura eremita e excêntrica, zarpando com sua família de Londres para ir morar em uma fazenda, e passando a excursionar com o Slim Chance junto com uma trupe de circo, com trapezistas, palhaços e malabaristas, em uma verdadeira turnê mambembe, intitulada The Passing Show!
Também são notórias suas participações especiais, a partir dessa época, em discos solo de grandes colegas de outras bandas, sendo o mais notório com o guitarrista da antiga banda rival The Who, Pete Townshend: o sensacional Rough Mix, lançado em 1977.
Mas a doença, algo que vinha já hereditariamente da família de sua mãe, veio a acometer Lane, que a partir de 1979, já começa a demonstrar sinais da esclerose múltipla - mal que, no início dos anos 80, já passa a debilitar o artista cada vez mais, o condenando a se locomover em uma cadeira de rodas.
Em 1984, buscando um clima mais favorável para o seu contínuo tratamento, Lane se muda com a família para o Texas, nos EUA, e apesar de todas as dificuldades que a esclerose lhe impõe, ainda se esforça para continuar tocando - regularmente, em turnês com amigos músicos.
É do início dos anos 90, a partir de 1992, uma série de shows beneficentes em que grandes astros e amigos do mundo da música (Ron Wood, Eric Clapton e Jimmy Page, entre outras feras) resolvem não só prestar homenagem ao carismático e íntegro companheiro, como também ajudá-lo financeiramente: desde os anos 60, Lane e os outros ex-integrantes dos Small Faces não recebiam os valiosos royalties que a gravadora Immediate Records devia ter pago a eles, e que seriam substanciais para ajudar o músico em seu tratamento.
Após uma verdadeira batalha judicial, promovida pelo colega baterista Kenney Jones, eles finalmente conseguem receber o montante depois de um julgamento da Justiça britânica dando ganho de causa ao pagamento, em 1994, e que seria essencial para um fim de vida mais digno para Lane.
Bastante decadente, Ronnie Lane parte desse mundo em 4 de junho de 1997, aos 51 anos, sendo enterrado em Trinidad, Colorado. E deixando boas recordações, de grandes momentos e grandes músicas, em toda uma geração que tomou contato com sua obra.
Mais um nobre representante da arte pop/rock, esquecido e desconhecido por tantos, que deixou sua contribuição entre nós, e partiu para reverberar em uma outra dimensão.
Justiça seja feita, o cara era bom.











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