HÁ 55 ANOS ATRÁS, OS BYRDS ENTRAVAM NA QUINTA DIMENSÃO


Talvez fosse só intriga da oposição, fofoca. Talvez fosse sutil ironia do destino: como assim, um "pássaro" teria medo de voar?

É, mas o fato era esse: o grupo americano de folk rock The Byrds (os pássaros!) adentrava 1966 no auge do seu sucesso, tidos como a resposta perfeita dos EUA aos ingleses Beatles, com dois álbuns no topo das paradas (os antológicos Mr. Tambourine Man e Turn! Turn! Turn!, de 1965), perdendo um de seus principais membros, o cantor e compositor Gene Clark, pois este teria alegado que o medo de voar de avião, devido às cada vez mais extensas turnês e shows do grupo, estava o deixando estressado e paranóico, e aquele não era o estilo de vida que ele havia sonhado para ele, afinal.

Motivação essa que, ao longo dos anos e com a continuidade da carreira musical solo de Clark, provou ser meio furada - muito se alardeou posteriormente sobre a sua saída, pois havia muito mais motivos relacionados a questões empresariais e divergências criativas entre ele e a banda do que se poderia supor, mas... já era. Clark era a primeira grande baixa dos Byrds, e agora eles teriam que se virar sem ele.

The Byrds durante uma de suas turnês em 1965 - Gene Clark é o segundo, da esquerda para a direita

E qual era o caminho? 

Ousadia e inovação.

Em julho de 1966, era lançado Fifth Dimension, o terceiro álbum do grupo, uma coleção genial de canções que quebravam paradigmas do pop da época, e mostravam novas direções para onde o rock deveria ir.


O hit single que puxaria as vendas desse novo trabalho, e que na verdade redefine tudo mesmo, dando uma nova cara ao som do grupo, é a clássica "Eight Miles High" - uma canção onde se sobressai a liderança do guitarrista, compositor e também vocalista Roger McGuinn (famoso por sua Rickenbaker de 12 cordas e os eternos oculozinhos escuros retangulares, símbolo fashion da época). 

Roger McGuinn

"Eight" era revolucionária: os Beatles nem tinham lançado o seu majestoso LP Revolver (só sairia em agosto daquele ano), e George Harrison ainda não tinha mostrado ao mundo sua devoção pelas influências da música indiana - mas McGuinn já aparecia empunhando uma cítara, e os Byrds apareciam ali no horizonte, tocando um raga rock, com andamento repleto de influências orientais e indianas, e letra salpicada de ácido, fazendo com que essa música se tornasse um hino, apesar de banida de algumas rádios na época de seu lançamento, pela menção à palavra "high" (alto, doidão ou chapado, numa alusão ao LSD do movimento flower power).

Dessa forma, os Byrds deixavam definitivamente para trás uma certa imagem de "meros recicladores do som de Bob Dylan", que eles carregavam desde suas primeiras gravações. O novo LP era uma prova disso: não havia um cover sequer, de nenhuma canção de Dylan, como eles estavam tão acostumados a fazer antes.

Outros destaques ficavam por conta da própria faixa-título, uma viagem country rock contemplativa, e de "Why", com uma batida também influenciada pelos sons da Índia.

Eight Miles High

Rolava também aquela abertura de mente com "Mr. Spaceman": Mcguinn e o seu comparsa David Crosby, que agora também se firmava mais incisivamente nas composições e vocalizações do grupo, aproveitando o vácuo deixado por Gene Clark, elucubravam sobre a vida extraterrestre inteligente, com marcianos tentando se comunicar com os humanos através de ondas de rádio, num folk rock vibrante, que seria descaradamente plagiado por nosso Rauzito Seixas anos depois (na sua "S.O.S.", do disco Gita, de 1974).

Tinha também incursões jazzísticas em "I See You", uma rendição do clássico tema "Hey Joe" (em formato byrdiano), e uma soturna e pequena obra-prima baseada em poema do autor Nazin Hikmet, que versava sobre as crianças vítimas da bomba de Hiroshima, na 2ª Guerra Mundial: "I Come and Stand at Every Door".

Mr. Spaceman


I Come and Stand at Every Door


Wild Mountain Thyme

Como um dos melhores momentos do disco, o folk resplandecente e etéreo do tema tradicional "Wild Mountain Thyme" (anteriormente gravado por Pete Seeger), trazia os Byrds desvendando paisagens sonoras repletas de camadas melódicas fascinantes, num belíssimo trabalho de produção que colocava eles à frente de seu tempo, como autênticos arautos psicodélicos de uma nova era. Tanto é que, foi graças ao arrojo de Fifth Dimension, e sua aceitação pelo público como um grande obra de sua época, que os Byrds foram chamados para compor o line-up de um dos primeiros grandes eventos do rock: o célebre Festival de Monterey, que ocorreria dentro de alguns meses, na Califórnia.

Dali em diante, viriam mais experiências arrojadas, com discos como Younger Than Yesterday (1967) e The Notorious Byrds Brothers (1968). E aí já é outra história.

David Crosby e Roger Mcguinn dividindo os holofotes: Byrds no Festival de Monterey, 1967


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