O ÉBRIO SORRISO AGRIDOCE DE 'DRUK'

Resolvi escrever a respeito do dinamarquês Druk - Mais uma Rodada (Druk - Another Round, 2020), o célebre (e merecido) vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro desse ano, porque nenhuma das outras críticas que li sobre o filme me pareceu simpaticamente apropriada à intensidade e psique que essa pequena obra-prima apresenta, após eu ter assistido a ela ontem.

Por assim dizer, é filme dos mais caprichados. E feito para se assistir com um ébrio sorriso agridoce nos lábios.

O trabalho do diretor Thomas Vinterberg é uma das mais gratas surpresas vindas do cinema europeu nos últimos tempos, e traz um frescor de revelações e emoções, em camadas, como os mais saborosos vinhos de uma rara safra, a serem apreciados com zelo e devoção.

É preciso ter um pouco de experiência de vida, para encontrar em Druk toda a complexidade das mensagens que o filme tem a transmitir.

É um roteiro inicialmente melancólico, e duro com as pessoas tantas que existem por aí, de uma certa idade, já desiludidas com os rumos da vida, e perenes em sua sorumbática caminhada rumo ao túmulo. 

Imerge no bisonho desejo de um grupo de amigos, professores de uma escola de ensino médio, de  enveredarem por um experimento científico altamente inusitado, de proporcionarem doses gradativas de álcool em seus organismos, para melhorarem aspectos de suas vidas profissionais. Por conseguinte, os reflexos disso também vão imediatamente aparecendo na conduta pessoal desses curiosos senhores, já tão enfastiados e aborrecidos com os revezes de casa, família, emprego, e sonhos abandonados.

Tudo começa por conta de Martin - docente de História, em interpretação contida e carismática do fantástico Mads Mikkelsen, um ator tão bom e intuitivo, que nem é preciso mudar muito de expressão facial para sabermos o que ele está sentindo. Ao perceber que o seu desempenho como professor, para estimular os alunos a se esforçarem e tirarem boas notas para ir para a faculdade, está indo para o brejo, bem como ao deixar transparecer para os amigos que está com o seu casamento em crise, ele aciona neles o gatilho para que tudo comece.

Todo ser humano nasce com um certo teor de álcool no sangue, pela tese do psiquiatra norueguês Finn Skårderud. Então, o ideal para que mantenham suas vidas com vigor, criatividade, musicalidade, e um nível maior de empolgação, é preciso que mantenham esses níveis diariamente acentuados, gradativamente.

No início, a experiência dá muito certo.

Depois, devido ao óbvio desejo do ser humano de querer sempre amplificar o que acha bom, e se superar, a coisa vai exagerando. Os problemas vão aparecendo.

Não é bom ficar dando muitos detalhes aqui, sob o risco de spoiler.

Apenas tenha em mente que Druk é um filme muito bom de se ver, e apesar do peso dramático que fará os espectadores se compadecerem pela ruína desses pobres diabos que vão se encharcando cada vez mais (e com tudo que aparece pela frente), não se enganem: em momento algum é um filme pretensamente moralista, ou hipócrita, que pregará que a bebida é algo do mal, que destrói vidas, trabalho e relacionamentos, e pronto, acabou. Nada disso.

Druk tem a delicadeza de um engenhoso roteiro, que desnuda todas as nuanças dos problemas envolvendo as peripécias etílicas. Mas de uma forma jamais vista antes. Sabe mostrar tanto o lado realmente bom, quanto o lado realmente ruim da bebida.

Ali, no fundo de tudo, está uma belíssima elegia ao ser humano, e sua necessidade praticamente fisiológica de buscar motivos para mudar. Para não se estagnar. Aprender a viver com coragem, confrontando o seu destino, e lutando sempre por transformações. Para se revigorar, voltar a novamente buscar seus sonhos perdidos e nunca, mas nunca mesmo, entregar os pontos. O tédio e o sentimento de fracasso são verdadeiras mortes em vida - o álcool talvez seja apenas uma das molas propulsoras a se dizer 'não' para todo esse estado de coisas, mas poderia ser qualquer outro estopim. Talvez, quem sabe, até mesmo o balé jazz que o personagem de Martin abandonou, em sua adolescência (revelação essa que traz alguns momentos bem engraçados do filme).

O plot twist perto do desfecho da trama, depois de um de seus momentos mais tristes, é a prova disso.

Após tantas quebradas de cara de nossos "heróis bebuns", o que presenciamos é um gran finale colorido, dançante, e apoteótico. Que representa, afinal, um delicioso e marcante brinde à vida, e à vontade de viver. 

E extremamente bem vindo nesses tempos de doença, e dor. Saúde!

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