CALÍGULA - DEVASSIDÃO DO PODER, REALIDADE PARALELA, E 'WANDAVISION'
Um épico às avessas, por assim dizer.
Quando o ítalo-americano Bob Guccione - dono de uma das mais famosas revistas masculinas dos EUA, a Penthouse - e Franco Rosselini, conversando entre um e outro espaguete, decidiram contratar o célebre escritor Gore Vidal para escrever o roteiro de um filme sobre a ascensão, apogeu e queda de um dos mais polêmicos imperadores de Roma, parecia que ainda não estava muito certo qual seria o tom a ser impresso em uma obra já fadada a ser eloquente, pela intenção de contratar apenas nomes milionários para perpetrá-la, mas que também seria destinada ao gosto jocoso e exacerbado dos loucos anos 70 do século XX, no que tinha de mais kitsch e decadente, em relação ao erotismo apelativo.
Sim. Por mais que alguns queiram apenas mitificá-lo pelo seu caráter de "primeiro grande pornô milionário" do cinema, enquanto outros desprezam isso como se fosse apenas um desvio de percalço, a verdade é que Calígula - filme de 1979, dirigido em parte por Tinto Brass, em parte pelo próprio Bob Guccione e outros caras nem creditados - disparou dolosamente para todos os lados. E onde atingiu, fez um belo de um estrago.
Talvez a pior coisa de filmes como esse, seja a real constatação de que, quando uma guerra de egos entre os seus realizadores desagua no próprio choque de visões criativas que eles tem em relação ao produto, tudo tende a sair muito caótico e defenestrado.
A história original de Gore Vidal era um prato cheio para os críticos do autoritarismo imperialista daqueles tempos, um alerta sobre os egos desmedidos de visionários do poder centralizador - uma época em que Margaret Thatcher e Ronald Reagan já despontavam no horizonte, o mundo sentia toda uma ebulição recessiva graças ao fracasso econômico eclodido pela crise do petróleo, e os anos 80 estavam chegando com tudo para cobrar a conta dos excessos sessentistas e setentistas.
O Calígula de Vidal era o retrato de como um simples lunático podia ter a plena certeza de que era Deus, e que podia fazer tudo, com todos, e na hora que quisesse e bem entendesse.
Era uma visão mais pura do mito, e também mais política.
Para desempenhá-lo, seria trazido o intérprete de um dos mais icônicos psicóticos da década, o Alex DeLarge do filme de Kubrick, Laranja Mecânica (1971) - o notável ator britânico Malcolm McDowell estava de volta como o monarca romano, com aquele olhar surtado, o rosto possesso, e repleto de uma megalomania e falta de pudores, como poucos poderiam interpretar.
Na esteira dele, vinha o elenco estelar: John Gielgud, Peter O'Toole, Helen Mirren... Numa história com ênfase nas intrigas palacianas dos pretores, sobre como o poder corrompe, destrói, e piora ou anula o caráter humano quase inexistente, na busca incessante por mais e maior dominação. A história é clássica: o jovem Calígula sobe ao poder e comanda de forma tirânica o Império Romano durante 4 anos - nesse período, promove orgias nababescas e atentados sangrentos, afronta o Senado e manda matar um monte de gente para se manter no poder, casa com uma prostituta enquanto mantém um romance incestuoso com a própria irmã, e chega a nomear o seu próprio cavalo, Incitatus, como senador romano. Uma trama do caramba. Tinha tudo para dar certo.
De repente, começaram os problemas. Tinto Brass, contratado para dirigir o filme, vinha refinando o seu estilo para um erotismo natural e esteticamente delineado, desde obras como La Vacanza, de 1970. Na sua opinião - e ele sempre fora um cara de gênio forte - Calígula deveria mostrar a decadência e o amoralismo que o poder imprime, através de belas e fortes cenas eróticas, como uma forma de ressaltar a crítica de que os poderosos sucumbem inevitavelmente a todos os seus desejos, por mais lascivos que sejam. Ele queria abrandar o peso soturno e violento da história pensada por Vidal, mas oferecendo uma outra forma das pessoas imaginarem a libertinagem e falta de limites no que havia sido o Império Romano.
Foram dele as primeiras tomadas do filme envolvendo casais nus e intercurso sexual - ainda que de uma forma mais velada do que iria parar na versão final, que foi para os cinemas.
Brass chegou a pedir para retirarem o seu nome do filme - no que, talvez por pirraça dos produtores, não foi atendido.
Alguns diretores foram chamados para terminar determinadas cenas, mas coube ao próprio Bob Guccione amarrar tudo, e dar um fecho na coisa. O grande equívoco disso é que, para ele, um editor de revista de "mulé pelada", o que menos interessava era o contexto histórico do lance todo. Com uma parte considerável da trama principal já gravada pelos seus atores, Guccione aloprou, e pensou que a melhor forma de preencher bem a película, e dar a ela uma envergadura de "filmão" (com quase duas horas e meia de duração!), seria rodar um monte de cenas de sexo praticamente explícitas, com atores e atrizes 'especializados', e salpicar isso para tudo quanto era lado na fita.
Graças a ele, vemos um festival doido de cenas com pontas narrativas bem soltas, onde logo após Calígula 'Alex' McDowell dar aquele berro com os senadores para cumprimentarem o seu cavalo como se fosse gente, já aparece logo em seguida uma cambada de figurantes numa alegria só, brincando de esconder vareta em cenários luxuosos. É bizarro.
São aqueles tipos de sequência que, ou deixam a gente meio perplexo e desconcertado, sem entender muito o porquê daquilo ali, naquele exato momento, ou se você está numa vibe mais bem humorada e de boa, tem que encarar pelo lado da avacalhação mesmo, e entrar na onda.
Calígula é, de fato, repleto desses momentos.
Nem é preciso dizer que, pela época em que foi feito, o filme foi censurado em vários países, e massacrado pela crítica. Um jornalista nos EUA chegou a escrever que nunca tinha visto uma porcaria tão degradante como aquela, em toda a sua vida.
Mas, se ao assisti-lo hoje em dia, conseguirmos conceder a essa obra um desconto pela "era dos excessos' em que ela foi urdida, e centrarmos nossa visão em um enfoque sobre como o poder é obsceno, e realmente devasso, dá para tirarmos algumas conclusões bem interessantes, por mais que elas sejam constantemente interrompidas pelos ultrajantes bacanais romanos que tomam 60% do tempo do filme.
Afinal, quando o nosso caro Calígula 'Alex' McDowell arregala aqueles olhos, brada que gostaria de despejar sangue em Roma inteira, e logo a seguir se delicia com irmã, prima, meretriz, concubina, e o que mais aparecer pela frente, temos a certeza de que pelo menos algo da visão original de Gore Vidal o filme foi bem sucedido em mostrar: como o poder cria, também, uma falsa ilusão da realidade. Um mundo à parte, uma realidade paralela e desumana, na qual o detentor do poder insiste em prosseguir, e disseminar.
Mas muitas pessoas tidas como 'comuns' também vivem isso, numa alucinação induzida pelos perigos da mente.
É criada uma imensa bolha insana, em que muitos tentam eternamente viver.
Recentemente, uma série de heróis de grande sucesso abordou esse tema: WandaVision, do canal de streaming Disney/Marvel.








Comentários
Postar um comentário