UMA VIDA (E MORTE) DE FILME 'B'


Dia: 17 de março de 2021. Horário: por volta das 21 horas. Local: o reduto sagrado dos distanciados da pandemia (sofá de casa, de frente pra TV). 

É mais uma noite modorrenta em que o cansaço da rotina pandêmica de trabalho remoto já me saturou tanto, que nem sono na verdade consigo ter. Procuro algo para assistir em alguma plataforma de streaming (que não vou citar aqui porque não estou fazendo merchan, não estou sendo pago pra isso). Fã de documentários que sou, logo me deparo com um título inusitado, para o qual jamais havia me atentado antes.


Blood & Flesh: The Reel Life and Ghastly Death of Al Adamson é um desses petardos inesperados, que deixam a gente realmente pensando, "qual pode ser o sentido da vida para muita gente que parece não ter senso nenhum de qualquer sentido?". O filme, com farto material de arquivo, conta a história completa de Al Adamson, um dos mais insanos diretores de filmes 'B', de baixo orçamento, do cinema norte-americano. Tais filmes, aliás, poderiam ser classificados mais no patamar do 'C', 'D' ou até mesmo 'Z', dependendo da opinião de quem assiste...

O título original do doc (algo como: "Sangue e Carne: A Vida Enrolada e a Morte Medonha de Al Adamson") reflete bem a loucura que foi a trajetória de mais uma dessas figuras das quais ninguém ouve falar em sua época, mas que depois que morre, vai aos poucos mitando e se tornando objeto de culto. A expressão "the reel life", aliás, é um trocadilho em inglês para "real life" (vida real), mas transmite a noção de que Adamson era um obcecado por cinema e pelo clima tosco dos filmes que ele produzia, e na maioria das vezes dirigia - reel é um termo para carretel ou rolo de filme, celulóide. E a peregrinação psicótica de Adamson em fazer cada vez mais filmes absurdos fez com que ele acabasse tendo uma morte digna de algumas das bizarras tramas que ele filmava.

Trocando em miúdos, ele é amplamente comparado a Ed Wood - o polêmico diretor também americano, que nos anos 50 e 60 do séc. 20 se travestia de mulher e rodava películas com monstros e alienígenas, às vezes com orçamentos ridículos de cinco ou seis mil dólares. Pra quem não sabe, Wood foi magistralmente retratado num filme do diretor Tim Burton, em 1994, com o astro Johnny Depp no papel principal.

Johnny Depp como o cineasta Ed Wood - no famoso filme de 1994

Adamson viveu e atuou praticamente na mesma época que Wood. Mas em termos de comparação, seus filmes tinham um "quê" de criatividade marginal e perversa que, em certos momentos, deixava o coleguinha comendo poeira. Debutando na área dos faroestes e filmes de cowboy contra índio (nos quais o seu pai, Victor Adamson, já era um conhecido ator na velha Hollywood), ele logo partiu para o ataque com histórias de terror e ficção científica, o cinema fantástico, mas sem nunca abandonar sua paixão pelas atuações canhestras de atores desconhecidos (com pouca ou nenhuma experiência no ramo), e a exposição de mulheres seminuas ou em cenas comprometedoras. 

Seus filmes passaram a ser conhecidos no meio como "o festival de seios de Al Adamson".

Uepaaa... As garotas dos filmes de Adamson: só perigo

Se apaixonou pela estrelinha dos seus primeiros filmes. Casou com outra, descoberta em uma de suas produções em 1969, a loirona 'perigosa' Regina Carrol - atriz amadora descoberta como dançarina em um bar de beira de estrada, onde rodavam o filme - que permaneceu fielmente com ele até falecer, em 1992. 

O nome do filme? Satan's Sadists, um pastiche sem noção com gangues e motocicletas, que tentava pegar carona no sucesso dos filmes hippie de carros e motos da época (Easy Rider, Vanishing Point e outros). Terminou por afundar de vez a carreira do ex-astro boyzinho de filmes musicais Russ Tamblyn - que havia atuado no sucesso Amor, Sublime Amor (West Side Story, de 1961). Depois de se envolver com a galera da birita bagunceira dos filmes de Adamson, Tamblyn nunca mais conseguiu se reabilitar para um papel de sucesso sequer.

Russ Tamblyn arranhou vilmente sua carreira com os filmes de Adamson...

Adamson também cultivava essa mania dos diretores de filmes de baixo orçamento: recrutar, como chamarizes para suas produções rasteiras, grandes astros de outrora, já envelhecidos e em decadência, mas precisando de uns trocados para as contas a pagar. Caíram na lábia de mala do diretor gente como os antigamente célebres John Carradine (pai dos famosos atores David, Keith e Robert Carradine) - cada vez mais parecendo um zumbi carqueticamente corroído pelo uísque - e Lon Chaney Jr., o antigo protagonista dos filmes de terror do Lobisomem, também alcoólatra e dominado pela obesidade e depressão. Caíram nas unhas de Adamson e seus filmes podreira, e de lá só saíram no caixão.

Quando começavam a circular os rumores de que Adamson estava rodando mais um filme - e ele, incansavelmente, chegava a fazer isso umas 8 ou 9 vezes por ano, entregando uma quantidade inacreditável de produções no mercado! - logo os conhecidos do ramo cinematográfico já se perguntavam, "nossa, será que ele vai melhorar em alguma coisinha dessa vez?". São hilários esses comentários de produtores e colegas de Adamson, ao longo do documentário.

Geralmente, a resposta era negativa. Adamson conseguia se superar na tosqueira a cada filme. Já se tornaram lenda suas obsessões por enxertar cenas de filmes antigos, promocionais ou de outras épocas em suas próprias produções (só pra dar um "enchimento" na história e duração do filme), ou mesmo pegar cenas de filmes seus ou dos outros, filmadas em preto e branco, e "borrar" elas com filtros de cores saturados, para dar a impressão de que eram filmagens atuais, rodadas para o filme - um "novo e revolucionário" efeito cunhado pelo diretor como Spectrum X. E ele ainda criava motivos para isso no roteiro! Em uma de suas produções de ficção científica, a cena muda de cor inesperadamente, para um filtro de tom todo amarelado. A atriz pergunta, pasma: "por que ficou tudo amarelo assim?". O outro ator em cena responde: "eu usei o mecanismo que dispara os reatores de raios amarelos". Isso está no documentário. É de chorar de rir.

O efeito 'Spectrum X' de um dos filmes - dessa vez, num asqueroso tom verde

Outras bizarrices insanas de Adamson envolviam a "reutilização" de filmes já rodados pelo cineasta e relançados várias vezes, com títulos trocados e apenas algumas cenas cortadas ou substituídas para enganar o público e fazê-lo assistir ao mesmo filme novamente; a contratação de um corretor da bolsa de valores como forma de dar "reconhecimento" e pagar pelo seu serviço de corretagem, mas que nem conseguia pronunciar suas falas (Roger Engel), para fazer o papel de Drácula num filme alucinado chamado Dracula vs. Frankenstein (de 1971, com o duelo entre os dois monstrengos); e um senso pervertido de uso de anões e personagens com deformidades físicas em várias de suas produções - geralmente remetendo aos creepshows ("shows de horrores") dos antigos circos norte-americanos, uma afronta ao 'politicamente correto' de hoje em dia.

O documentário vai seguindo a carreira de Adamson até os seus estágios finais, após a morte de sua esposa Regina, que o deixa bem abatido. É quando a gritante pobreza de suas últimas produções, nos anos 80/90 (já realizadas em fita VHS, diretamente para redes de videolocadoras fuleiras dos EUA), passa a contrastar com uma pretensa obsessão do mesmo por grupos ligados a teorias da conspiração sobre invasão de alienígenas, e o envolvimento com um velho conhecido, barra pesada, chamado Fred Fullford, que vai trabalhar como pedreiro de Adamson em uma mansão de sua propriedade, na cidade de Indio, California.

Adamson em mitológica foto com o "ator" Roger Engel - corretor da bolsa de valores, contratado para atuar como Drácula e faturar um cachezinho 

Adamson desaparece por alguns dias. A sua funcionária e alguns poucos conhecidos passam a estranhar os dias de sumiço. Sob as suspeitas do pedreiro Fred estar utilizando carro, cartão de crédito, e outros bens pertencentes a Adamson, amigos dão queixa na polícia. 

O que se segue é triste e pavoroso, mesmo para o padrão dos filmes sangrentos e macabros do diretor: após escavações em uma área originalmente reservada para piscina em sua casa, e posteriormente concretada por Fred, é encontrado o corpo já bastante decomposto de Adamson, morto aos 65 anos. A data do óbito pela autópsia constava 21 de junho de 1995. O cadáver, com sinais de agressão por instrumento contundente, já estava ali há semanas. Fred Fullford é localizado e preso logo depois, já foragido, em um hotel na Florida.

Al Adamson foi um típico gênio às avessas. O impressionante relato de sua vida mostra que o ser humano pode ser dotado de uma verve e criatividade latentes, e quando quer, a sua envergadura para o trabalho e a natureza de sua inteligência podem produzir coisas maravilhosas - ou simplesmente grotescas e ridículas. 

Mas em tudo, nos deixa uma pequena lição de moral. E que reflete uma velha máxima materna, ainda presente nas lembranças de muitos: "toma cuidado com as pessoas com quem anda".

A bela mansão de Adamson onde ele foi encontrado morto, na California

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