HÁ 50 ANOS ATRÁS... 'L.A. WOMAN', THE DOORS

 

"Bem, eu cheguei na cidade há cerca de uma hora atrás
Dei uma olhada em volta, pra ver de que lado o vento sopra
Onde ficam as garotas em seus bangalôs de Hollywood
Você é uma mocinha sortuda na cidade das luzes?
Ou apenas mais um anjo perdido..."
(Jim Morrison - "L.A. Woman")

Assim começava Morrison entoando o hino dos malfadados, dos iludidos. De todos aqueles 'anjos perdidos' que vagavam pelas ruas em busca de sonhos. Na city of lights, cidade das luzes. Dos estúdios de cinema e da ostentação. Dos delírios de grandeza e dos vícios, mentiras, e solidão.

Cidade dos anjos. 'Os Anjos' - Los Angeles. Ou pela clássica sigla, L.A.

Exatamente hoje, 19 de abril de 2021, dia em que este texto é publicado, faz 50 anos que a banda americana The Doors lançou o derradeiro álbum de sua era clássica, a última tentativa de ainda fazer música plena e vigorosa, orgulhosa de si e de suas raízes blues e jazzísticas, e ainda no afã de segurar em seu posto o lendário vocalista/poeta/escritor/compositor (ator?) James Douglas Morrison - Jim Morrison. "Jimbo", como os mais chegados o apelidavam. Ou "Mr. Mojo", a entidade lendária e travessa das antigas lendas negras do Delta, Mississipi, com que o próprio Morrison se identificava e se auto intitulava, nos pavorosos momentos de pânico que a devassidão do cantor, em sua possessão por drogas e bebidas, havia causado nos anos anteriores.

A cara barbuda de Morrison e sua barriga já proeminente combinavam com um certo olhar vazio que ele apresentava naqueles dias estranhos, já indicando que um grande cansaço de ser uma "estrela do rock" e dos exageros de outrora acometera o homem. Em 1971, já faria 2 anos que a loucura de Morrison havia empurrado a carreira do seu grupo para um precipício sem volta, o fatídico show de Miami, em que o cantor apareceu bêbado e cambaleante no palco, totalmente alterado, insultando e provocando a plateia, e ainda protagonizou um até hoje mal explicado espetáculo obsceno de exibição de seu órgão genital ao vivo, como ultraje final pelo fastio que a fama havia lhe causado.

Os Doors perderam praticamente todos os contratos de shows que tinham a fazer dali em diante, e se tornaram praticamente criminosos em território americano, persona non grata onde quer que fossem, como recompensa pela gracinha de Morrison. 

Ele, por sua vez, enfrentou processos judiciais pelo resto (pouco) de sua vida, e mudou radicalmente de postura perante a mídia, se tornando um cara mais recluso e calado, de barba espessa e roupas universitárias, quieto e se dedicando mais às escritas de seus livros, numa tentativa radical de mudar a imagem de "rock star porralouca" que ele mesmo havia criado.

Quando o empresário dos Doors, num esforço hercúleo, conseguiu retomar agendas de shows e amenizar o impacto do estrago moral causado pelo incidente, em 1970, logo após o lançamento de um excelente disco que revitalizava o som da banda (Morrison Hotel), as coisas já não eram mais como antes.

Jimbo estava desanimado com os fãs, as luzes do palco e o alvoroço das turnês, assim como com novas gravações. O homem havia mudado - era agora o escritor, o intelectual Jim Morrison.

Foi com surpresa então que, ainda em dezembro de 1970, Morrison e seus colegas concordaram em entrar em estúdio novamente, com algumas composições que tinham para um novo álbum - dessa vez, gravando diretamente no seu QG de ensaios, o Doors Workshop, em Los Angeles mesmo, por considerarem o local mais aconchegante e pessoal. O vocalista, inclusive, primava pela casualidade, chegando a gravar as suas partes diretamente de um dos banheiros, pois sua acústica o agradava...

Esse contexto é necessário para se entender o som despojado e coeso do disco, feito pela banda com um desprentensiosismo tal, que era como se estivessem só brincando ou tocando para relaxar, depois de umas cervejas... É The Doors em seu estado mais puro e por vezes épico, quatro mentes criativas viajando aos confins do acaso e perfeitamente incertos de seu futuro artístico, mas produzindo brilhantemente mesmo assim. L.A. Woman, o 'adeus' de Jim Morrison, talvez seja realmente o melhor álbum do grupo.

O produtor de longa data da banda, Paul Rothchild, pediu as contas e caiu fora para produzir outros trabalhos - sendo um deles Pearl, de Janis Joplin - e rasgou o verbo de que não estava mais achando o som dos Doors vibrante como outrora, não se sentia mais empolgado em produzir um álbum de estúdio deles. A batuta ficou então por conta do engenheiro de som que já trabalhava com eles, Bruce Botnick - e o resultado ficou muito bom, talvez por figurar um estilo de gravação mais cru e direto, calcado no blues, como o grupo desejava.

Era o sexto disco dos Doors, e começa magistral, com "The Changeling", um rock bem suingado e mostrando um Morrison ironicamente emulando a voz encharcada de bourbon de cantores negros. A performance temperada no jazz dos teclados de Ray Manzarek e da bateria de John Densmore, bem como os arroubos guitarrísticos de Robbie Krieger, embalam uma levada inebriante, onde Morrison irrompe ameaçadoramente quando brada: "I'm the air you breath / Food you eat / Friends you greet / In the sullen street" (Eu sou o ar que você respira / A comida que você come / Os amigos que você encontra / Na rua agitada).

A canção seguinte é excitante e cristalina: "Love Her Madly" sairia como single, alavancando as vendas do álbum. Composição de Krieger na qual inicialmente nem o próprio apostava muito, ela cresceu no estúdio com as adições do piano maroto e de um solo incrível de Manzarek nos teclados, além dos maneirismos displicentes que só Morrison conseguia criar com sua voz. "Been Down So Long" pegava fundo na veia do blues ao estilo Chicago, enquanto "Cars Hiss By My Window" era lenta e viscosa, envolvente.

A quinta faixa do álbum, que originalmente encerrava o lado A (na versão em LP), era justamente a faixa-título, uma coisa absurda de tão acachapante, nascida de uma jam improvisada no estúdio, ao estilo boogie, que foi se prolongando e prolongando, com extrema criatividade, em que Morrison canta e encanta uma de suas maiores musas, a L.A., Los Angeles alucinada dos delírios e dos excessos. Quando ele brada "Mr. Mojo Rising" (Sr. Mojo se levantando), sabemos que ali estava uma entidade sobrenatural que o havia possuído por completo no êxtase pleno da canção, comandando o grupo numa pajelança dionisíaca que seria uma de suas ultimas grandes atuações artísticas e supremas.

"L'America" era a sobra rejeitada de uma encomenda que o diretor italiano Michelangelo Antonioni havia feito para que a banda contribuísse com uma música para a trilha sonora do seu filme de 1969, Zabriskie Point. O diretor não gostou muito do resultado, mas ela se encaixou muito bem no álbum, de atmosfera sombria e maquiavélica, ostentando o sarcasmo de sua letra sobre símbolos tradicionais dos EUA.

A faixa seguinte é uma das mais lindas produções dos Doors já feitas, a balada "Hyacinth House". A letra reflexiva de Morrison sobre amizades perdidas e chances de se reinventar como pessoa era emoldurada por um belíssimo solo de órgão de Manzarek, que brincava sobre uma variação da composição clássica de Chopin, Polonaise.

"Crawling King Snake" era um blues de John Lee Hooker, já velho conhecido dos shows da banda, que agora era apresentado numa rendição à altura em estúdio, ao passo que "The WASP" era um poema de Morrison musicado pelo grupo, numa cadência forte e solene, onde certos temas sobre os dogmas e signos do conservadorismo interiorano do Tio Sam eram retomados com fúria.

O álbum encerra com o gran finale perfeito, e aquele que seria o seu último compacto lançado, a épica e misteriosa "Riders on the Storm". Enfeitada por sons de chuva que preparavam a entrada dos teclados cristalinos de Manzarek, tilintando espiritualmente numa história contada por Morrison sobre serial killers nas estradas americanas, a música descerrava perfeitamente os portais da percepção, conferindo um fim digno à fase clássica dos Doors que, dali em diante, após o falecimento de Morrison, ainda tentaram seguir com mais 2 discos de estúdio. Mas o clima era outro, e nunca mais o impacto seria o mesmo.

Morrison teve muito pouco tempo para acompanhar o desempenho do álbum. Em 3 de julho de 1971, após sua retirada do mundo artístico para descansar e produzir poesia com sua esposa Pamela Courson, recluso em um período sabático em Paris, na França, o cantor é encontrado morto na banheira do hotel em que eles estavam.

Talvez ele soubesse que não voltaria. Talvez já estivesse tudo planejado, ou não.

Fica simplesmente a imagem dos Doors, esses eternos cavaleiros na tormenta, se esvanecendo na chuva do tempo. E na estranha e incomparável beleza do cinquentenário álbum L.A. Woman.

Ouça: Love Her Madly


Ouça: Hyacinth House


Ouça: L.A. Woman


Ouça: Riders on the Storm

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